IV VERÃO DE POESIA - CURSOS
Como alguns já sabem, graças ao Thiago Ponce e a Ana Rüsche, no final de fevereiro (26 a 29) irei participar de uma série de cursos sobre a poesia brasileira de 60 para cá. A mim coube a nada fácil tarefa de apresentar a poesia de 2000 até hoje. Se por um lado há o obstáculo de não se ter o afastamento devido (nomes consolidados, vozes distintas, fortuna crítica etc.), por outro, há o benefício de poder contar com o auxílio dos próprios poetas. Resumindo a conversa, pois eu não frequento esse meu blog há muito tempo e perdi um pouco o jeito, quem puder entrar em contato comigo é só me mandar um e-mail para pauloferraz@hotmail.com, a minha idéia antes de mais nada é ter acesso ao maior número possível de novos autores, inlcuindo os da rede, pois se há um detalhe que não pode escapar ao se falar da poesia hoje é justamente a aparição da internet, dos sites pessoais, dos blogs.... bem, já estou entrando no curso. Obrigado pela ajuda de todos, assim vamos construindo esse curso conjuntamente de hoje até o dia 26/02


GERAÇÃO POESIA
De terça a sexta, das 19 às 21hs (debate com o convidado será sempre às sextas- feiras) Vagas: 30; Taxa: R$ 10

Este curso, com a duração de 15 encontros, fará um passeio pelas décadas de 60, 70, 80, 90 e 00, com o intuito de entender o que se tem produzido nas mais recentes vanguardas da poesia a partir do legado deixado pelas gerações anteriores. A Casa das Rosas convidou 5 especialistas para falar sobre a poesia produzida em cada década e mais 5 autores representantes das gerações para conduzir um bate-papo com os alunos.

De 22 a 25 de janeiro – Geração 60, por Roberto Biceli. Autor convidado: Roberto Piva
De 29 de janeiro a 1 de fevereiro – Geração 70, por Andréa Catropa. Autor convidado: Glauco Matoso
De 12 a 15 de fevereiro – Geração 80, por Andréa Catropa. Autor convidado: a confirmar
De 19 a 22 de fevereiro – Geração 90, por Cláudio Daniel. Autor convidado: Ricardo Aleixo
De 26 a 29 de fevereiro – Geração 00, por Paulo Ferraz. Autor convidado: Ana Rüsche


Alba
Traduzione di Laura Minervini

Non la resistenza
del vento, bensì la
densità dell'acqua
che avvolge, che prende il
corpo, inoculando il
veleno dell'attesa fino

a transformare pelle in
pensiero, meno,
in voci udite,
altre mai dette.
Ciò che si vede ha del
sogno quasi nulla, ap-

pena il desiderio
di averla di nuovo alla
distanza delle dita;
lei sarebbe vici-
na, non fossero le grida
del mondo e del corpo,

non fosse quell'oriente,
non fosse quella musi-
ca che viene dagli albe-
ri, non fosse ascoltare il
materasso, il lenzuolo e il
cuscino: ritorno alla

realtà, di traverso nel letto
ti reclama la fatica.
De Paris
Se ainda houver alguém que visita esse blog, essa mensagem é so para dizer que este é meu ultimo dia de Paris (espero que ultimo dia com esse maldito teclado). Balanço? nao, daqui nao sairah um romance, nem um poeminha sequer. Baudelairianamente falando, andei por toda Paris, cruzei de ponta a ponta, por todos os meios de transportes (quer dizer, menos barco), falar que é bom, muito pouco, talvez no momento essa seja a minha maior impressao, que mais que lidar com Paris, tive que lidar comigo mesmo, quando a boca cala, sobra mais tempo para mente inventar coisas. Gostei da bagunça em meio a toda essa ordem meio classica, a toda a "razao", todo positivismo, Paris muda, disse Baudelaire, errou, Paris, quase nao muda, o que muda é a sua periferia, muito rica, com todas as contribuiçoes possiveis, na Paris que todos conhecemos, ouve-se um pouco de tudo, menos francês, qualquer dia da semana, qualquer hora tem sempre alguém com um guia e uma maquina fotografica na mao. Bom, era so isso, vou ficando por aqui, ainda ha algumas horas para flanar.
NO CAFÉ PITTORESQUE




NO CAFÉ PITTORESQUE

Funciona mais ou menos assim: Você. Você entra em cena, chega, escolhe uma mesa. Senta-se. Olha ao redor de si. Deixa um livro de poesia sobre a mesa. Abre. Os pés de um garçom em sua direção. Logo nos primeiros versos te interrompem. Boa noite. Boa noite, uma caneca de chope. O que você estava lendo mesmo? Você precisa de outra distração, poesia não serve. Lá está a caneca. Tente se concentrar nesta espuma, no mundo filtrado pelo vidro dourado úmido. Você até sente os primeiros goles, passa a língua sobre o lábio superior (o movimento é rápido, ninguém veria, mesmo que visse, não poria reparos), sim, o calor está insuportável, por isso essa mesa ao ar livre -- esqueci-me de dizer, que a mesa foi escolhida ao ar livre, você respondeu ao boa noite, mas na verdade é fim de tarde --, mas pensar no clima não é suficiente para te fazer esquecer que já era tempo de ela haver chegado. Começa então o ritual de olhar o vazio da entrada. (...................................... ) O vazio, o vazio, o vazio que se repete. Funciona mais ou menos assim, você olha como se quisesse materializá-la, já viu isso em filmes, por isso, mesmo inconscientemente, crê que sua vontade pode controlar a natureza, seus elementos e suas leis fazendo-a aparecer sob o batente. Assim você segue, não há um período regular, mas mal retira os olhos e os volta em seguida, no fundo você queria ter uma espécie de surpresa, que seus olhares se cruzassem ao acaso (como se cada um andasse em rota de colisão por ruas repletas de gente indiferente), que seu olhar interceptasse o sorrido dela logo no seu nascimento, capturando o primeiro movimento muscular, ali sob o batente, ficando maior a cada passo. Você queria que isso ocorresse agora, nesse instante. Tira os olhos. Outro chope e outros muitos olhares para o vão, o livro desapareceu. Agora um para o relógio, sim, o relógio pode se transformar numa ampulheta, contando o tempo ao avesso até o último grão quando então ela, não, não, ela não chegou, ou o telefone, olhe firme para ele, olhos nos olhos, tudo não passa de uma questão de autoridade, ele serve a você, então diga pausado (mas com firmeza): parla! Garçom, outro chope. Funciona mais ou menos assim, você relaxa, acende um cigarro, dá um trago profundo e expira, na verdade um suspiro, a fumaça e os pensamentos que se dissipam no ar. Então ela está sob o batente. Sorrindo, o primeiro movimento muscular, ficando maior. Funciona mais ou menos assim.
Rosa, gatos e citações



Hoje vou citar, sim, citar, afinal acredito que citação é mais que demonstração de conhecimento, erudição; é identificação, é querer ter escrito algo, é fazer suas as palavras alheias (ah, claro, eu respeito o texto citado, mas não de modo reverencial, não, creio que é possível profaná-lo também, descolá-lo no tempo/espaço, fazer dele outro texto, mas deixemos isso para o Walter Benjamin explicar). Bom, vamos ao caso. Ganhei o "Caderno de Literatura Brasileira" com o Guimarães Rosa, nem entre no mérito da publicação, Guimarães não precisa de mim, no caso, eu é que preciso dele, a prova é essa passagem do seu diário. Roubo para a Chuchu e para a Mimo, e deixo a prova do crime para aqueles que quiserem roubar o texto para os seus gatos:



9.V.950, Levantei, sem despertador, só com a cortina aberta e o chamado de Ângela, às 8hs. 30'. O tempo que fiquei na cama, foi quase que voluntariamente. Me alegra que esteja mais quente, um pouco, hoje. Xizinha náo tinha querido comer. Fico bem um quarto de hora com ela no braço. Ronrona, ronrona. Ângela diz que ela teve saudades de mim, durante a noite. Levo-a à janela que dá para a rua: seu "cineminha". Leve, quentinha, cheirosa, é como um meu coração externo, contra meu peito. Sua curosidade infantil, para com os automáveis. Amorzinho. Felpudo. Sempre me interessa.
Notas sobre a sombra


Um poema novo.Sobre a sombra. Acho que é isso, ainda estou pensando. Feito numa manhã de terça feira, ao observar o movimento dela, que nos permite conhecer os volumes, a profundidade, a distância. Enfim, uma tentativa de retirar a sombra que paira sobre a sombra, rs.



É como digo, das coisas
a sombra guarda bem mais que a
memória, pois, cria da reali-
dade, traz os genes que lhe
dão a forma da matriz (ao
pai não puxou quase nada,
de fato, ele lhe confere o
talhe, interferindo sempre
no seu desenvolvimento),
dizem que é prima distante
da água, embora de cores
distintas, isso porque ambas
se ajustam às superfícies,
correm líquidas por outros
corpos, todavia, enquanto a
branca opta quedar-se em planos
ou lançar-se em quedas, a negra
tem o orgulho de ficar de
pé (antes que o poema termine,
peço que deite teus olhos
sobre a minha sombra que te
cobre e te envolve, tatuagem
móvel que gravo em ti, anteci-
pando o tato, o toque -- nunca
desligue teu abajur).
Então, o outro poema traduzido do português para o português que fiz é um do Mané Bandeira. Ah, saudade dessa inconsequência juvenil...


Epígrafe


Nasci em bom berço. Criança,
Fui, como as tantas, feliz.
Veio o fado e, após a bonança,
Tirou de mim o que quis.

Um anjo sombrio do mundo
Meu peito em caixa vazia
Tornou ao correr de um segundo,
Estrondo de ventania.

Fez e desfez de mim: lama,
Pó e cinza, sem dó nem pena –
Que dor imensa!
....................E só em cena
Quedei, só com o peito em chama:

Queimou em gritos sem fim
No cerne desse amor torto...
E dessa brasa carmim
Restou este carvão morto.

— um pequeno carvão morto...


Manuel Bandeira (trad. Paulo Ferraz, 4/10/99)

Agora, o original:


Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugia e como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó —
Ah, que dor!
.................Magoado e só,
— Só! — meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.

— Esta pouca cinza fria.
Estive pensando outro dia quando começou a minha inquietação que quase nada de novo há para ser feito em poesia, se é que algum dia teve, que na verdade glosamos os mesmos temas ao longo da história, variando a forma, o foco, o corte, olhando ora de telecópio ora de microscópio, dissecando ou implantando. Cheguei a uma espécie de resposta. Em algum momento de 1999 eu lia uma tradução do John Donne feita pelo Augusto de Campos e outra feita (creio) pelo Paulo Vizioli. Pensava comigo: é o mesmo poema, ambos estão trabalhando com a mesma língua, mas chegam a resultados distintos. Pensei, se é possível de uma língua para outra, seria então possível uma "tradução" do português para o português? qual o limite? até onde um poema permite permutas sem perder o que lhe faz realmente ser poesia (ora, quem faz poesia sabe muito bem que há uma hora que devemos dizer chega, pois se não sempre iremos modificá-lo)? Fiz dois exercício, mais um que ficou pela metade e algumas tentativas descatadas já de início. Deixo o primeiro deles, uma "tradução" que fiz do Nelson Ascher, e como toda tradução respeita alguns elementos poéticos, mas "fere" outros. Seguem:


MAIS UMA ABORDAGEM CRÍTICA

É público e notório
que a mosca não se presta a
nenhum papel - a priori o

símbolo exato do asco,
com mérito e louvor,
cabe a barata; fiasco

semântico, não evoca
funções precisas como o
fazem a aranha, a broca;

fruto inútil dos sete
dias do labor de deus -
pois lixo de toalete

com dotes de ave - até (vê-
se que ao acaso) que existe,
se bem que a um prazo breve;

no ar sua rota é um sofisma
vazio que nada inspira
com o qual insiste e cisma - a

seu estilo perfunctório -
castrando a lira, já que
repete o repertório.



UMA ABORDAGEM CRÍTICA


Como se sabe, a mosca
não se presta a nenhuma
figura, mesmo tosca,

nem secreta do bojo,
como barata, a estrita
metáfora do nojo,

também não mostra manhas
de texto num exemplo
preciso: traça, aranha;

fragmento de delito
divino (inócuo, pois
minúsculo), detrito

com asas por acaso,
quase inexiste e, ao que
parece, a curto prazo;

mesmo seu vôo, por muito
retórico, tampouco
serve a qualquer intuito

lirista e, se se enrosca
na lira, ainda assim
persiste em ser de mosca.
JEUNE FILLE
Se vocês pensam que fui embora, eu enganei vocês, fingi que fui e voltei, oi, eu aqui outra vez... bom, pra quebrar o gelo com um musiquinha de carnaval adaptada, afinal, por aqui só há mesmo é cópia, versões e afins, nada de novo. Mas a despeito disso vou hoje postar um poema meu, é recente, já posso considerá-lo pós-denovonada, sério, não tô afim de criar limo muito menos virar diluidor de mim mesmo. Por isso, o poema que segue difere bastante do que costumo fazer, não vou explicar muito, é visível, isso mesmo: visível. Abraços



JEUNE FILLE AVEC DES CERISES AUX MAINS



SILÊNCIO

...........À mesa
...........do Café
...........Hemingway&Picasso ...................................[o mundo,
...........tamborilava........................................um pouco além]
...........a capa de
...........seu diário:

...........piano pianissimo..............................................[a caneta
......................................ESMALTADO.......................jazia
........................................................................ adjacente]
...........A melodia
...........via-se(ou-)
...........nas unhas ...................................................[platéia
...........arranhando..................................................de boca
...........o ar............................................................e olhos]

...........o mistério é saber quais palavras escreviam a cada nota DE CEREJAS
Nunca escrevi diários, mas é como se os escrevesse


Nunca soube ao certo qual porção de individualidade deve o poeta pôr de si naquilo que escreve, quando o poema vira um diário ou quando o diário vira poesia? É certo que há depoimentos, cartas, conversas que são tão profundas, tão verdadeiras que nos arrebata, mas possivelmente nos arrebata porque é real, e há momentos em que o real, cru, sem mediações, nos leva prum poço escuro, nos arrasta por umas zonas abissais de nós mesmos que sempre evitamos. Nunca escrevi diários, mas é como se os escrevesse. No início, era mais claro que meus textos eram resultado de algumas angústias emocionais, coisa de quem começa a escapar da placenta da infância, pouco a pouco as angústias foram aumentando, em vez de diminuirem, deixaram de ser meramente emocionais e ganharam outros espaços da mente, estéticas, sociais, históricas e aí a minha poesia foi paulatinamente ganhando o lado de fora, mas um lado de fora que é sempre observado, filtrado, pensado pelo lado de dentro, a ponto de um e outro entrarem num mutualismo, criarem uma interdependência.

Nesse registro do "diário", gostaria de expor um poema que jamais foi visto por ninguém, permaneceu arquivado em meu computador por longos quatro anos e meio. Trata-se de um poema dedicado a minha avô, Dona Geny, que falecera naquele dia. Sensação estranha, pena que não me lembre dos meus sonhos, pois quando meu pai me ligou numa manhã de sábado ou domingo (escrevendo isso, me lembro de meu pai me acordar no dia do meu aniversário de sete anos dizendo: acorda, pois você verá seu avô hoje pela última vez), quando eu já estava acordado, quando por algum motivo eu já sabia da notícia, como se ela antes já houvesse me avisado. Enfim, qual o limite? até quando devemos nos amarrar nos mastros? ouvir as sereias assim é uma forma de manter-se firme, mas a verdadeira experiência não é nadar atrás delas?


VELA
"and therefore I forbid my tears" (Hamlet, Shakespeare)
para Genny Prado Ferraz (1918-2002)


Olhe-a:
está em chamas

você a vê se desmanchar?
sim, mas é a via do calor


(calor = vida)


Olhe-a:
consumiu-se

nem parafina, nem cinza, nem chama
ela se foi


Para isso queimou (viveu)?
não, para a luz

— se não a vemos mais —

que continua
viva




PS: acabei de encontrar um e-mail escrito à época do falecimento, está na mesma linha deste texto, enfim, como estamos falando de diários, vou deixá-lo público:

"minha vó morreu nessa madrugada, hoje sei lá porque acordei às seis da manhã e assim que levantei meu pai me ligou dando a péssima notíca. Estou muito triste, muito pela morte, e muito por não poder ir ao funeral, pois não tenho dinheiro para isso. Desculpe-me o tom.
Abraços desse teu amigo que te quer bem,

paulo
(esse é um dos preços da distância, viver como um exilado em sua própria terra, agora, 14:50, minha vó deve estar sendo enterrada e não posso estar com meu pai, talvez por isso eu tenha sonhado com ela nessa noite, não me lembro como ou o quê, apenas sei que nessa madrugada acordei com ela na cabeça. Mais uma vez meu pai me impressionou, a primeira vez foi na morte de meu avô, no meu aniversário de 7 anos, ele não derramou uma lágrima, e agora ele me liga, com uma segurança que eu seria incapaz de ter, não sei como ele pode, como ser tão forte? eu ñ posso, eu não sou forte, tanto que agora estou péssimo, e hoje de manhã eu lia o Hamlet, e quando Laertes sabe da morte de Ofélia e diz "Too much of water hast thou, poour Ophelia, and therefore I forbid my tears. But yet it is our trick; nature her custom holds, let shame say what it will", chorei, por Ophelia, por Laertes, por minha avó, por meu pai, por mim.)



Sobre esse quiprocó entre mim e mim mesmo na noite passada, houve um detalhe que omiti: como não costumo ser insone, em certo momento comecei a refeltir sobre a situação de querer dormir e não conseguir, pois é, esta parece ser uma característica minha, eu raramente desligo a chavinha da razão, então logo eu estava analisando a mim mesmo e a falta de sono, aquilo foi ficando estranho, pois de algum modo eu queria me desdobrar, queria naturalmente me envolver com a procura pelo sono, mas um "outro" eu ficava me analisando, isso, era como se aquela pessoa que fica atrás de nós no divã estivesse no meu quarto, mas os dois eram eu. Ah, « je est un autre », como dizia o Rimbaud, deve ser, deve ser, talvez seja essa razão de haver poetas! (um dia eu conto, quando com uns oito anos, na zona rural de Mato Grosso olhei ao redor de mim, vi o campo, fiquei sentindo o vento, ao lado de um grupo de moradores da região que não davam a mínima para o que viam, e então por um instante eu me vi separado deles... olha, já contei!). Enfim, saí da cama, e uma das razões foi que eu precisava pôr no papel algumas das minhas "interpretações" daquela situação. Isso virou um poema, acho que é o primeiro poema meu que posto aqui direto, sem mediação, mas como está no contexto, acho que vem bem a calhar. Só estou na dúvida quanto ao título, usei ALBA, como disse no post anterior, mas na verdade acho que deveria se chamar "in albis", ok, ok, esse latim jurídico é uma porcaria, mas ainda assim, acho que tem a ver. Digam:


Alba


Não a resistência
do vento, mas sim a
densidade da água
que envolve, que agarra o
corpo, inoculando o
veneno da espera a-

té transformar pele em
pensamento, menos,
em vozes ouvidas,
outras jamais ditas;
o que se vê tem do
sonho quase nada, a-

penas o desejo
de tê-la outra vez à
distância dos dedos,
ela estaria próxi-
ma, não fosse a grita
do mundo e do corpo,

não fosse esse oriente,
não fosse essa músi-
ca que vem das árvo-
res, não fosse ouvir do
colchão, do lençol e do
travesseiro: volta ao

real, ao invés do leito
te reclama a lida.


João Gilberto, Nicanor Parra, eu e você, na madrugada



Raramente tenho insônia. Algumas vezes simplesmente demoro um pouco mais para dormir, isso porque fico entretido com alguns pensamentos, fico desatando alguns nós feitos ao longo do dia, como um copydesk revejo, reedito e, quando satisfeito, caio no sono. Hoje, sei lá qual motivo (uma rápida saída para beber água), acordei no meio da madrugada, e nada de dormir (que inveja da Chuchu e da Mimo que dormiam, por sinal, elas só dormem), nada, ficava lá na cama rolando de um lado pra outro, me agarrando em algum fragmento de conversas, revivendo algumas cenas que me fazem bem, mas nada me serviu de lullaby, de berceuse, de acalanto. Bem, se não podemos vencer a insônia, façamos dessas poucas horas úteis (de repente me lembrei dos trovadores e suas "albas", "oh, a cotovia já cantou", risos). O dia já está quase nascendo, "Eu, você, nós dois já temos um passado meu amor/ Um violão guardado, aquela flor e outras mumunhas mais/ Eu, você, João, girando na vitrola sem parar/ E o mundo dissonante que nós dois/ Tentamos inventar Tentamos inventar Tentamos inventar/ Tentamos...", é, gente, isso é que é canção de ninar marmanjo, a voz e o violão do João. E que o Morfeu se ferre, ele que vá embalar quem precise dele! E na tentativa de manter a consciência, segue um poema do Nicanor Parra que acabei de encontrar (na verdade queria outro, li há poucos dias, mas não o encontro e não estou com o melhor humor do mundo para vasculhar sites), e que me fez lembrar um velho poema modernista que todos conhecemos. Bom dia para todos, olha o sol ali nascendo atrás da Monte Alegre:


EPITÁFIO

Eu sou Lucila Alcayaga
aliás Gabriela Mistral
primeiro ganhei o Nobel
e depois o Nacional

apesar de que estou morta
continuo me sentindo mal
porque não me deram nunca
o Prêmio Municipal.



EPITAFIO

Yo soy Lucila Alcayaga
alias Gabriela Mistral
primero me gané el Nobel
y después el Nacional

a pesar de que estoy muerta
me sigo sintiendo mal
porque no me dieron nunca
el Premio Municipal



Ah, encontrei o poema, segue mais uma tradução quente como pão de padaria!

É ESQUECIMENTO


Juro que não me recordo nem de seu nome,
Mas morrerei chamando-a de Maria,
Não por simples capricho de poeta:
Por seu aspecto de praça de província.
Tempos aqueles! eu um espantapássaros,
Ela uma jovem pálida e sombria.
Ao voltar uma tarde do Liceu
Soube da sua morte imerecida,
Novidade que me causou tal desengano
Que derramei uma lágrima ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, quem acreditaria!
E olha que sou uma pessoa de energia.
Se hei de conceder crédito ao dito
Pelas pessoas que me trouxeram a notícia
Devo crer, sem vacilar um ponto,
Que morreu com meu nome nas pupilas,
Feito que me surpreende, porque nunca
Foi para mim outra coisa que uma amiga.
Nunca tive com ela mais que simples
Relações de estrita cortesia,
Nada mais que palavras e palavras
e uma ou outra menção de andorinhas.
Eu a conheci em minha vila (de minha vila
Só resta um punhado de cinzas),
Mas jamais vi nela outro destino
Que o de uma jovem triste e pensativa.
Tanto foi assim que até cheguei a tratá-la
Com o celeste nome de Maria,
Circunstância que prova claramente
A exatidão central de minha doutrina.
Pode ser que uma vez a tenha beijado,
Quem é que não beija suas amigas!
Mas tenha claro que o fiz
Sem me dar conta do que fazia.
Não negarei, isso sim, que me agradava
Sua imaterial e vaga companhia
Que era como o espírito sereno
que às flores domésticas anima.
Não posso ocultar de modo algum
A importância que teve seu sorriso
Nem desvirtuar o favorável influxo
que até nas mesmas pedras exercia.
Juntemos, ainda, que da noite
Foram seus olhos fonte fidedígna.
Mas, apesar de tudo, é necessário
Que compreendam que eu não a queria
Senão com esse vago sentimento
Com que a um parente enfermo se designa.
Sem dúvida acontece, sem dúvida
O que esta data ainda me maravilha,
Esse inaudito e singular exemplo
de morrer com meu nome nas pupilas,
Ela, múltipla rosa imaculada,
Ela que era uma lâmpada legítima.
Tem razão, muita razão, a gente
que segue se queixando noite e dia
De que o mundo traidor em que vivemos
Vale menos que roda furada:
Muito mais nobre é uma tumba,
Vale mais uma folha mofada,
Nada é verdade, aqui nada permanece,
Nem a cor do cristal com que se olha.
Hoje é um dia azul de primavera,
Creio que morrerei de poesia,
Dessa famosa jovem melancólica
Não recordo nem o nome que tinha.
Só sei que passou por este mundo
Como uma pomba fugitiva:
Eu a esqueci sem querer, lentamente,
Como a todas as coisas da vida.


ES OLVIDO

Juro que no recuerdo ni su nombre,
Mas moriré llamándola María,
No por simple capricho de poeta:
Por su aspecto de plaza de provincia.
¡Tiempos aquellos!, yo un espantapájaros,
Ella una joven pálida y sombría.
Al volver una tarde del Liceo
Supe de la su muerte inmerecida,
Nueva que me causó tal desengaño
Que derramé una lágrima al oírla.
Una lágrima, sí, ¡quién lo creyera!
Y eso que soy persona de energía.
Si he de conceder crédito a lo dicho
Por la gente que trajo la noticia
Debo creer, sin vacilar un punto,
Que murió con mi nombre en las pupilas,
Hecho que me sorprende, porque nunca
Fue para mí otra cosa que una amiga.
Nunca tuve con ella más que simples
Relaciones de estricta cortesía,
Nada más que palabras y palabras
Y una que otra mención de golondrinas.
La conocí en mi pueblo (de mi pueblo
Sólo queda un puñado de cenizas),
Pero jamás vi en ella otro destino
Que el de una joven triste y pensativa.
Tanto fue así que hasta llegué a tratarla
Con el celeste nombre de María,
Circunstancia que prueba claramente
La exactitud central de mi doctrina.
Puede ser que una vez la haya besado,
¡Quién es el que no besa a sus amigas!
Pero tened presente que lo hice
Sin darme cuenta bien de lo que hacía.
No negaré, eso sí, que me gustaba
Su inmaterial y vaga compañía
Que era como el espíritu sereno
Que a las flores domésticas anima.
Yo no puedo ocultar de ningún modo
La importancia que tuvo su sonrisa
Ni desvirtuar el favorable influjo
Que hasta en las mismas piedras ejercía.
Agreguemos, aun, que de la noche
Fueron sus ojos fuente fidedigna.
Mas, a pesar de todo, es necesario
Que comprendan que yo no la quería
Sino con ese vago sentimiento
Con que a un pariente enfermo se designa.
Sin embargo sucede, sin embargo,
Lo que a esta fecha aún me maravilla,
Ese inaudito y singular ejemplo
De morir con mi nombre en las pupilas,
Ella, múltiple rosa inmaculada,
Ella que era una lámpara legítima.
Tiene razón, mucha razón, la gente
Que se pasa quejando noche y día
De que el mundo traidor en que vivimos
Vale menos que rueda detenida:
Mucho más honorable es una tumba,
Vale más una hoja enmohecida,
Nada es verdad, aquí nada perdura,
Ni el color del cristal con que se mira.
Hoy es un día azul de primavera,
Creo que moriré de poesía,
De esa famosa joven melancólica
No recuerdo ni el nombre que tenía.
Sólo sé que pasó por este mundo
Como una paloma fugitiva:
La olvidé sin quererlo, lentamente,
Como todas las cosas de la vida.



De Poemas y antipoemas (Santiago, Nascimento,1954)

DOIS
Poxa, fiquei uns dias fora do ar, e eis que já sou cobrado por não estar publicando nada... Entendo que a vida na internet seja assim mesmo, dinâmica, não dá pra ficar parado, tem que produzir, tem que publicar. Andei vendo umas coisas nesses dias, alguns poemas do Nicanor Parra, algumas músicas do Boris Vian, mas não conclui nada, li, ouvi, discuti, mas nada de pôr no papel/tela. Bem, como eu comentei que havia mais um poema do Eich perdido comigo, eis que seguem, a tradução e a paráfrase, na verdade, não sei se devo chamá-la de paráfrase, pois apenas dei uma cor brasileira ao poema, nem precisava. Pena que não tenho o original, assim nem posso saber se errei alguma palavra.

DOIS

Ambos sicilianos
e as azeitonas negras e verdes,
dois tons de vinho,
duas pátrias:
o dia de ontem
o dia de amanhã.

Lá fora
os amigos
passeiam com suas realidades
os inimigos
com seus acordos.


DOIS (paráfrase de Günther Eich)

Ambos mato-grossenses
e os cajus vermelhos e amarelos
dois tons de cachaça
duas bandeiras:
o dia de ontem
o dia de amanhã

Lá fora
os amigos
passeiam com suas realidades
os inimigos
com seus acordos.
EICH



Há muito tempo comprei um livro: Oito séculos de Poesia Alemã, uma edição da Calouste Gulbenkian, que li com muito interesse, a despeito de todos os poemas estarem em alemão, sem traduções para o português infelizmente (lembro-me de um outro, da Ediouro, uma edição de bolso, que trazia traduções, muitas que iam desde Gonçalves Dias aos modernistas), mas que trazia alguns estudos dos períodos e sobre seus principais representantes (a Ana Rüsche deve se lembrar desse livro, pois eu emprestei para ela, no distante ano de 1998, quando ela ainda estava no Porto Seguro). Claro que Goethe (tentei traduzir o "Mailied": Wie herrlich leuchtet/ Mir die Natur! Wie glänzt die Sonne! Wie lacht die Flur! Como magnificamente/ a Natureza me ilumina! Como resplandece o sol! Como gargalha a campina!... sem sucesso...), Schiller, Novalis, Heine, Hölderlin, Stefan George, Rilke, Trakl, Benn, Brecht e Celan já eram meus conhecidos (não tão próximos, diga-se), outros eu acabara de conhecer como Hugo von Hofmannsthal, Christian Morgenstern, Ingerborg Bachmann, Hans Magnus Enzensberger e Günter Eich. Infelizmente, nunca mais estudei uma linha de alemão, continuo apenas com as frases de primeiro ano, aquelas: "eu me chamo fulano", "eu moro na cidade tal", "tenho tantos anos". Todavia, lendo certa vez A verdade da poesia do Michel Hamburger, voltei os olhos novamente para Eich e a poesia do Pós-Guerra, no qual ele citava o conhecidíssimo poema "Inventário", santa ignorância a minha, Batmann, conhecidíssimo? então voltei ao meu velho livro Oito séculos... e lá estava ele, o "Inventur", do qual arrisquei fazer uma tradução, que ficou perdida no meu computador, mas resgatada agora (havia feito outra, chama-se "Zwei" "Dois", do qual perdi o original, fiz então uma paráfrase, irei publicá-la depois). Segue o conhecidíssimo poema (preciso dizer que correções serão mais que aceitas?)



Inventário


Esta é minha boina,
este é meu casaco,
aqui o meu lenço,
na bolsa de linho.

Lata de conservas:
meu prato e meu copo,
sobre a tampa está
meu nome gravado.

Gravado com este
precioso prego
a salvo comigo
de olhos invejosos.

Num saco de pão
estão um par de meias
e outras coisas, que
sem a ninguém trair,

serve de almofada
à minha cabeça.
O papel no chão
entre mim e a Terra.

A mina de grafite
é a que mais amo
de dia me escreve os versos
pensados na noite.

Este é meu diário,
esta é minha barraca,
esta é minha toalha,
esta é minha linha.



Inventur (1945)

Dies ist meine Mütze,
Dies ist mein Mantel,
Hier mein Rasierzeug
Im Beutel aus Leinen.

Konservenbüchse:
Mein Teller, mein Becher,
Ich hab in das Weißblech,
Den Namen geritzt.

Geritzt hier mit diesem
Kostbaren Nagel,
Den vor begehrlichen
Augen ich berge.

Im Brotbeutel sind
Ein Paar wollene Socken
Und einiges, was ich
Niemand verrate.

So dient es als Kissen
Nachts meinem Kopf.
Die Pappe hier liegt
Zwischen mir und der Erde.

Die Bleistiftmine
Lieb ich am meisten:
Tags schreibt sie mir Verse,
Die nachts ich erdacht.

Dies ist mein Notizbuch,
Dies ist meine Zeltbahn,
Dies ist mein Handtuch,
Dies ist mein Zwirn.



Günther Eich (1907 - 1972), nasceu no leste da Alemanhã, em Lebus. Estudou Direito e Sinologia em Leipzig, Berlin e Paris. Foi soldado na Segunda Guerra, tendo sido feito prisioneiro dos americanos, sendo libertado em 1946.
Gonzalo Rojas, eu e as mulheres ocas/vazias


Em poesia é mais que comum dois poetas caminharem por vias muito parecidas sem que um conheça o outro, sem que vivam, inclusive, no mesmo país ou tempo, talvez porque não haja nada de novo a se dizer (o como dizer, sim, há muitas formas de não se repetir a repetição), sem poder, portanto, falar-se em influenciado por, inspirado em, ou mesmo plagiado de. Seriam muitos os casos, mas gostaria de citar um caso particular, desculpem-me a falta de discrição, fazer autopropaganda não é bem o meu estilo, e querer colar-se à obra de outro então é de uma petulância que não cabe. Ainda assim quero registrar a coincidência entre um poema meu e outro do chileno Gonzalo Rojas (nascido em 1917), ele um dos maiores poetas chilenos ao lado de Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Gabriela Mistral e Nicanor Parra. O meu chama-se "Devotas da mulher de Lot" e foi escrito, salvo engano, no final de 1999 ou começo de 2000, o do Rojas chama-se "Las mujeres vacías" e foi publicado pela primeira vez em 1948, em seu livro de estréia, La miseria del hombre, depois republicado em Contra la muerte, de 1964, com o título de "Adivinanza", já reduzido à primeira estrofe, e novamente como "Las mujeres vacías" em seu livro Oscuro de 1977. De algum modo, talvez eu, talvez ele, talvez ambos, tenhamos partido de uma mesma imagem, a cunhada pelo Eliot (agora eu fui longe demais): "Nós somos os homens ocos/ Os homens empalhados/ Uns nos outros amparados/ O elmo cheio de nada. Ai de nós!" Oh, minha cabeça vazia, deixei de registrar essa informação nos primeiros rascunhos, agora já era, leiam os poemas e tirem suas próprias conclusões.

Devotas da mulher de Lot


(Paulo Ferraz, in Evidências Pedestres, a sair)

Nelas tudo é falso -
se mesmo a pretensa
sensualidade é pos-
tiça, o que dizer das
camadas de pó-de-a-
rroz barato sobre a
palidez da cara,
do descolorido
químico e dos óleos
de suas cabeleiras,
da mescla de cheiros
recendidos ou dos
dois trapos que imitam
roupas sobre os corpos? -
engenhosamente
falso, pois, capazes
de criar carapaças
na pele, esticar o
pescoço, só querem
ludibriar o enxofre
que está ao pé da porta,
fugindo do circo
como fossem justas,
e não dar pousada ao
passante sem teto
que lhes pede o quarto.

(Pena que não foram
tiradas quando eram
formadas apenas
da tenra matéria
de que todos fomos
moldados. Agora
são ocas - por isso
se maquiam em excesso,
tanto que, despidas
de tudo, de cara
limpa, não são vistas -
e nunca sabemos
o que trazem dentro.)

Se a hora é de matinas
ou vésperas, pouco,
muito pouco importa
para essas romeiras
de salto alto e meia-
sola remendada
que, talvez por medo ou
saudade da casa
perdida, repetem,
banhadas em suor, o
destino da mãe e
padroeira que está no
meio da rua parada.




As mulheres vazias
(Gonzalo Rojas, in La miseria del hombre, 1948, tradução minha)

Passam o dia pintando outro corpo
sobre seu corpo, suam
pintura com partículas de sangue
misturadas à sua beleza.
Menos que meretrizes, mais que vacas,
merecem um estábulo
onde haja cem corridas de mulheres
de quatro patas, com os úberes soltos.
Estas foram as belas de outros dias,
as que enganaram e mentiram
com suas covas tapadas pela imundice
da inocência a preço de ouro.
Abortaram na carne e no espírito,
pela urina e vômito,
pela boca, umbigo e orelhas.
Escapava-lhes tudo, menos algo.
Menos esse vazio que era tudo:
o ócio delicado,
o sorriso mordido pelo vício
a cratera do perfume de suas pernas.
De um milheiro de donzelas quietas,
há quinhentas vazias
que vivem pela honra das emprenhadas
pelo homem ou o sol do sacrifício.
A mulher deve estar cheia de coisas
como a mesma terra,
pelo trabalho ou o amor, guardando
as paixões dos homens.
Mas o mundo está cheio de mulheres vazias,
depois e antes do parto,
e a morte é também uma mulher vazia.
Cuspamos seu rosto e sua lembrança.




Las mujeres vacías


Pasan el día pintando otro cuerpo
sobre su cuerpo, sudan
pintura con partículas de sangre
mezclada a su belleza.
Menos que meretrices, más que vacas,
merecen un establo
donde haya cien corridas de mujeres
en cuatro patas, con las ubres sueltas.
Estas fueron las bellas de otros días,
las que engañaron y mintieron
con sus hoyos tapados por la mugre
de la inocencia a precio de oro.
Abortaron en carne y en espíritu,
por la orina y el vómito,
por la boca, el ombligo, las orejas.
Se les salía todo, menos algo.
Menos ese vacío que era todo:
el ocio delicado,
la sonrisa mordida por el vicio,
el cráter del perfume de sus piernas.
De un millar de doncellas acostadas,
hay quinientas vacías
que viven el honor de las preñadas
por el hombre o el sol del sacrificio.
La mujer ha de estar llena de cosas
como la misma tierra,
por el trabajo o el amor, guardando
las pasiones del hombre.
Pero el mundo está lleno de mujeres vacías,
después y antes del parto,
y la muerte es también una mujer vacía.
Escupamos su rostro y su recuerdo.

Анна Ахматова
    

Numa de minhas primeiras visitas a São Paulo, no centenário de Mario de Andrade, sim, outubro de 1993, passava pela Paulista e entrei na livraria Belas Artes - sobre a qual hoje, infelizmente podemos dizer, a antiga, a saudosa livraria Belas Artes -, prum garoto que saía do Mato Grosso eram livros demais, eram nomes demais, e claro, dinheiro de menos. Muitos livros me chamaram a atenção, um deles, lembro-me que o segurei, fiz que o ia levar, mas acabei devolvendo-o, era o livro Réquiem, de Anna Akhmátova, não sei dizer se a conhecia ou não, mas seja como for, quis muito levar aquele livro que nunca mais vi, se alguém souber (ou tiver em casa) me avise, pois gostaria muito desse reencontro.

Enquanto isso, vou me contentando com um poema ou outro que me cai nas mãos, como o que tive a displicência de traduzir...Bem, numa sitética biografia, informo que Akhmátova nasceu em Odessa em 1989 numa família de origem tártara. Estudou em Kiev e São Petersburgo, casando-se em 1910 com Nikolái Gumiliov, com quem formou ao lado de Mandelstam, o Acmeísmo, um dos muitos movimentos literários que agitavam a Rússia do começo do séc. XX. Seu primeiro livro "A tarde" é de 1912, quando nasceu também seu filho. Com a Revolução Russa sua vida é profundamente afetada (a sua e de muitos outros, como sabemos), não só literariamente, já que seu marido é fuzilado em 1921 (como vocês verão o poema que segue trata desse acontecimento) e seu filho é exilado na Sibéria por anos, nos quais Akhmátova manteve-se praticamente em silêncio, voltando a publicar somente após a década de 1940. Já seu livro Réquiem foi publicado em 1963, em Munique. Falece em 1966.






Não freqüentas mais a vida,
da neve não sais.
Vinte e oito fuzis de saída,
cinco são fatais.
Pro meu amado, camisa
amarga cosi.
A terra russa precisa
sentir sangue em si.

16 de agosto de 1921




Не бывать тебе в живых,
Со снегу не встать.
Двадцать восемь штыковых,
Огнестрельных пять.
Горькую обновушку
Другу шила я.
Любит, любит кровушку
Русская земля.

16 августа 1921
Romênia



Amanhã dois novos países entram para a comunidade européia, a Bulgária e a Romênia, por acaso, há poucos dias reli o poeta romeno Lucian Blaga, por conta de uma dúvida sobre o nosso suposto tesouro da língua, a palavra saudade, pois é, pois é, nossos companheiros de língua latina que ficaram isolados entre os eslavos e magiares têm um palavra com um significado muito semelhante: Dor. Recomendo a leitura desse poeta na página Poesia.net do amigo Carlos Machado, assim nos irmamos ainda mais desse país tão pouco conhecido entre nós, que entre outros deu ao mundo Mihai Eminescu, Tristan Tzara, Eugène Ionesco, Emil Cioran e Paul Celan. Entre estes outros, cito Gellu Naum, nascido em Bucareste em 1915 e falecido em 2001, que por conta de seus estudos em Paris entrou em contato com André Breton e a arte surrealista, tendo na sua volta à Romênia organizado uma "célula" surrealista, mas que foi dissolvida em 1947, quando do início da dominação socialista. Naum traduziu para a sua língua Diderot, Stendhal, Víctor Hugo, Jacques Prévert, René Char, Franz Kafka e Samuel Beckett. Seguem dois poemas seus, como não sei romeno, são de segunda mão (via tradução para o castelhano de Darie Novaceanu):

CROSTA

A cidade tinha somente uma casa
a casa tinha somente um quarto
o quarto tinha somente uma parede
a parede tinha somente um relógio
o relógio tinha somente uma língua

Durante esse tempo os meninos
cresciam e demandavam uma única pergunta
enquanto os adultos incertos e arrogantes
se amiudavam se amiudavam sorrindo.



CRUSTA


Oraşul avea o singură casă
casa avea o singură încăpere
încăperea avea un singur perete
peretele avea un singur ceas
ceasul avea o singură limbă

în tot acest timp copiii
creşteau şi puneau o singură întrebare
pe când adulţii nedumeriţi şi superbi
scădeau scădeau surâzând.

CAPARAZÓN


la ciudad tenía solamente una casa
la casa tenía solamente un cuarto
el cuarto tenía solamente una pared
la pared tenía solamente un reloj
el reloj tenía solamente una aguja

Todo este tiempo los niños
crecían y planteaban una sola pregunta
mientras que los adultos
inciertos y arrogantes
se disminuían sonriendo.


CICLO

Todo outono e toda primavera
o avô atravessava com as ovelhas
o espaço cárpato-balcânico
ida e volta
e as ovelha baliam
expressando deste modo
as mudas leis da migração

Um dia as ovelhas morreram

Em sua vagabundagem solitária
o avô deixou crescer uns longos bigodes
e começou a cuidar de uma manada de pedras

Depois o avô morreu também
os bigodes cesceram cada vez mais longos
as pedras desceram à terra
e começaram a morder seus bigodes.


CICLO

Cada otoño y cada primavera
el abuelo atravesaba con las ovejas
el espacio cárpato-balcánico
ida y vuelta
y las ovejas balaban
expresando de este modo
las mudas leyes de la migración

Un día la ovejas murieron

En su vagabundaje solitario
el abuelo se dejó crecer unos largos bigotes
y empezó a cuidar una manada de piedras

Después el abuelo se murió también
los bigotes crecieron cada vez más largos
las piedras bajaron a la tierra
y empezaron a morder sus bigotes.


Do primeiro poema encontrei o original romeno, daí a opção por "Crosta" próximo de "Crusta" e não "Carapaça", como poderia sugerir "Caparazón"; outra opção foi usar o verbo "amiudar-se", repetindo-o, pois assim está no original. Há porém algo que me intriga, é o uso do termo "limbă", em castelhano está "aguja", numa versão pro inglês está "hand", só que "limba" quer dizer "língua", enfim, deixei língua para manter a possível ambivalência e o estranhamento, mas se quiserem leiam "ponteiro" que no fundo no fundo é uma língua, até por que o Houaiss diz: "qualquer coisa que tenha o aspecto de língua (uma labareda, p.ex.)"


a máquina do mundo se entreabriu


Carlos Drummond me deu a dica: palmilhar vagamente uma estrada de Minas. Foi o que fiz. A Minas Gerais quase mítica do meu pai enfim se tornou real com um convite do meu querido amigo Donizete Galvão, esse Virgílio da Borda da Mata, que me levou pelas cidades em que meus antepassados viveram e meus parentes ainda vivem, como as irmãs de minha avó, que de lá saiu em 1957 com destino ao Mato Grosso, acompanhando meu avô e levando oito filhos (o nono nasceria em meio à mata de um lugar chamado Porto dos Gaúchos). Meu avô e minha avó já se foram, mas visitar suas montanhas foi como reencontrá-los. Cachoeira não é mais a mesma, modernizaram alguns imóveis, como que para trazê-la do passado, se soubessem do engano, do frankstein urbano que criam, por isso o sobrado do meu bisavô não está mais lá, nem sinal do balcão de onde se via a praça da igreja, na qual meu bisavô tocava os sinos e preparava o turíbulo, tendo a minha bisavó feito as hóstias (que enquanto não fossem consagradas eram um petisco para a molecada. Depois pergunto pro meu pai), nem sinal da porta lateral que dava prum salão onde meu avô tocava não os sinos mas um boteco. Mas a igreja está lá, e guiado pelas primas do meu pai, subimos à torre, onde está o carrilhão, formado por uma dúzia de sinos, um doado pelo meu tataravô, que também doara a pia batismal, outro pelo meu bisavô, seus nomes estão lá. Ao descer segurei a corda, tensionei-a levemente, como se fosse tocá-los, mas como explicar pra cidade aquele toque extemporâneo, queria repetir o gesto do meu bisavô que enquanto teve forças o fazia (e olha que ele só faleceu aos 101 anos e seis meses, já em 1975). Deixamos a igreja pra trás e fomos em direção à casa em que meu pai nasceu, uma ou duas quadras pra frente. Ao chegar lá, ouço os sinos, cujos nomes chegaram a mim, perpetuados no bronze e agora na minha memória.
Uma carta de 2004


Ana, meu bem, antes de tudo: que merda que é tentar escrever algumas palavras pra você (e por falar em merda, ontem ainda eu citava pela milésima vez o Álvaro de Campos: “Merda! Sou lúcido”, sei que não tem nada a ver, mas me lembrei de você brincando com o poema do Mário “te acalma, minha loucura”, poxa, eu queria muito um dia escrever um verso – ia ficar parecendo aquelas bonequinhas russas, ah, você não sabe, mas comecei a estudar russo, língua do cão, não consigo aprender nada, por sinal, o Álvaro de Campos diz que tudo é lúcido como um Gorki, um Dostoiévski, que grande merda! então, um poema tirado de outro tirado de outro – “te acalma, minha lucidez”), tentei outro dia sentado num bar do Flamengo, o Garota do Flamengo, uma espelunca, onde as carnes são preparadas ao lado das mesas e todos os clientes saem com cheiro de picanha na chapa, eu tinha acabado de sair da casa do Armando e da Cristina, você precisava ver como o Carlos está grande, levava comigo a sua nova antologia, fiquei ali tomando algumas canecas de chopp escuro (rien, cette écume?) e lendo seus poemas que o Armando de um jeito tão certeiro selecionou. O Armando é mesmo foda, ele tem um amor muito grande por você, ninguém melhor que ele saberia explicar para a garotada que inestinguível é o que não acaba e que hímen é a parte que veda em parte a vagina virginal, vai, isso já é quase um verso, olha aí, as bonequinhas russas! Acabei que só li e bebi, cheguei a escrever alguma coisa num papel pardo, mas não me lembro onde diabos enfiei essa porcaria, tudo bem que o que escrevi era ruim (não sei ser espontâneo, meu bem, tem que ter talento), mas quem sabe não se salvava uma palavra ou outra. Mas eu me lembro de uma idéia. Já te conto. Ontem, eu mandei uns poemas seus para uma amiga e, a despeito das diferenças entre os meus poemas e os seus, eu insisto sempre em dizer pra todo mundo que teadoro (vou roubar o verbo do Bandeira), que te ler é como roubar o carteiro, só que você sabe que o carteiro será roubado, joga com isso, e nós sabemos que você joga com isso, esperamos cartas falsas, daí você finge ser outra e é você mesma, opa, isso é do caralho, tudo vira um só, meia-bruxa, meia-fera. Ah, por que tudo isso? porque me lembrei do poema que queria escrever e não fui capaz:

da foto

ninguém viu que nesse envelope
dizia

FRAGILE

?

envelope de cotton
&
a obra completa



Então o poema era esse. Quer dizer, no dia eu só pensava nisso, niguém viu a palavra FRAGILLE, e aquilo me doia tanto. Desculpas, acho que não posso mais continuar. Preciso terminar um trabalho que está me atormentando, e já são quase três da madrugada, vou começar meu ritual, pôr pra tocar a Gal cantando o “Três da madrugada” do Torquato, todo dia é dia dele, esse é outro com quem precisava trocar umas idéias. Amanhã, vou acordar cedo e nadar um pouquinho, depois pagar o condomínio e voltar pra casa e estudar. Não vejo a hora das férias. A gente se fala.
Beijos
P
Очи чёрные



Quando eu fazia russo no Largo de São Bento, minha professora Tatiana nos ensinou essa canção folclórica russa, Очи чёрные (otchi tchiornie), que fala da paixão de um jovem por uma moça de olhos escuros, dizia ela que na Rússia as mulheres de olhos escuros tinham algo de especial, diferente, meio ciganas (eh, Capitu!), vindas de outras terras, e por isso mesmo um perigo para os jovens eslavos; o tema é extremamente romântico, é um tal de fugir, um tal de enfrentar a morte, aquelas coisas. A melodia é cigana e a letra foi escrita em 1843 pelo poeta ucraniano Yevgen Grebenka, tanto que haveria uma influência do ucraniano no texto, por exemplo очи (otchi) para olhos, já que em russo o habitual é глаза e час (tchas) para momento, em russo quer dizer apenas horas. Não me lembro da melodia, mas tenho o texto em russo. Segue acompanhado de uma versão que fiz para o português, tentei preseervar o ritmo 4 + 4, as rima aabb, fazendo aqui e ali umas "pequenas" mudanças, mas mantendo a idéia geral.


OLHOS ESCUROS

Olhos escuros, cheios de paixão!
Olhos ardentes e belos são!
Como eu os amo! Como eu os temo!
Certo, eu os vi num tempo extremo!

Oh, não por nada, o profundo escuro!
Para minha alma o luto procuro,
São duas fogueiras, nas quais me deito
Dou-lhes a brasa: meu pobre peito.


Não melancólico, sequer casmurro
Como consolo a vocês me empurro:
Deus nos deu tudo de bom na vida
nos olhos ígneos morrer convida.




Очи чёрные

Очи черные, очи страстные !
Очи жгучие и прекрасные !
Как люблю я вас! Как боюсь я вас !
Знать, увидел вас я в недобрый час !

Ох, недаром вы глубины темней !
Вижу траур в вас по душе моей,
Вижу пламя в вас я победное:
Сожжено на нем сердце бедное.

Но не грустен я, не печален я,
Утешительна мне судьба моя:
Все, что лучшего в жизни бог дал нам,
В жертву отдал я огневым глазам !






PS: acabo de descobrir que o Nikita Mikhalkov tem um filme chamado "Olhos Negros" (sim, é o mais correto, mas em inglês é Dark Eyes, então...)