Uma vez que a janela está aberta, acho de bom tom explicar por que afixei essa “placa” na fachada, DE NOVO NADA. Fosse um comércio e achariam que esta é uma casa de objetos usados, um antiquário ou um sebo. Vamos por partes. Por que escolhi o nome? Porque é o nome de um longo poema que venho escrevendo desde inícios do ano 2000. Mas isso não explica muito, ao contrário, só faz recair sobre o poema as eventuais conotações negativas que essa expressão contém. Aos desavisados, informo que a expressão é mera inversão do texto bíblico de livro do Eclesiastes: “nada de novo sob o sol”. Ah, vaidade das vaidades essa a minha de fazer uso de um texto dos primórdios de nossa inteligência. Sei que estou me afundando nessa lama ao insinuar que alguém no passado já fez o que fazemos agora, já ouço as pechas de “conservador”, “reacionário”, “tradicionalista”, deus me livre e guarde desses xingamentos, pois sou fiel à História e, mais, sou partidário da capacidade humana de mudá-la, da capacidade humana de interagir com os meios, de estabelecer com estes um processo de mudanças amplas. Mas desconfio das idéias de progresso contínuo, de hierarquia ou de qualquer outra imagem que sugira que qualquer criação de hoje seja independente ou superior aos que vieram antes de nós. Como criações da mente humana, um Macintosh não é superior a um ábaco, um tanque Abrahan não é superior a uma biga, o Guggenheim de Bilbao não é superior à caverna de Lacaux. Vivo o meu tempo, óbvio, e seus vetores que nos singularizam de todos os que vieram antes, que nos instiga a agir, intervir e cultivar a utopia de estarmos contribuindo com a melhoria da sociedade, mas não nos impede de nos sensibilizar com um poema mapuche, não nos impede de descobrir a presença do presente em passados tão distantes, do high tech nas comunidades mais primitivas, da vanguarda no folclore. Nada que é humano me é estranho. Me afundei um pouco mais, eu sei, eu sei, imaginem então se eu dissesse que duvido um pouco da autonomia da razão, da existência de verdades universais?
“Novamente, não há nada” poderia ser a outra forma de interpretar o título. E aqui a lama virá até o pescoço, pois não sei o que pode ser mais arriscado, declarar que não há nada de novo na poesia ou que a poesia continua a ser nada, o que facilmente pode-se confundir com aquele rien mallarmaico tão transcendente. Mas num mundo em que novidades surgem a cada instante (e não raro desistoricizadas, o que não se confunde com o que escrevia acima, pois não adianta pôr cadáveres nas ruas), num mundo em que o que vai por fora (design) é mais importante que o vai dentro (conteúdo), num mundo que cada vez mais se constitui de abstrações, de imagens que não mimetizam o real, de fantasmagorias históricas, de superfícies espelhadas, num mundo em que tudo é comercializável, em que tudo existe para acabar numa tabela de preços, apregoar que a arte é um nada é uma forma de resistência, de lutar com palavras e imagens. O poeta não pode aceitar essa novidade e essa utilidade que nos cerca. A utilidade da poesia é não ter utilidade. Seu valor é não ter valor. O poema existe no mundo e o mundo existe no poema. Um jornal está no mundo, mas o mundo não está no jornal. O jornal apenas diz o que há no mundo. A poesia é o nada que é tudo, parafraseando o Fernando Pessoa.
Escrito por Paulo Ferraz às 15:44:28
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Janela para espiar (e para falar) o (ao) mundo
Depois de ter preenchido o último campo com minhas informações pessoais, tive a sensação de ter dado a última volta de uma chave, todavia, eu jamais estivera diante dessa porta, nem mesmo presumira o que encontraria do outro lado. Porta aberta, percebi que não havia um quarto ou sala, ou estúdio, ou ateliê, ou qualquer cômodo, ou qualquer espaço físico delimitado por quatro paredes, no qual eu poderia me isolar e me dedicar à secreta tarefa de escrever (afinal, o velho JCMN questionava: “Por que é o mesmo o pudor/ de escrever e defecar?/ Não há o pudor de comer,/ de beber, de incorporar,/ e em geral tem mais pudor/ quem pede do que quem dá./ Então por que quem escreve,/ se escrever é afinal dar,/ evita gente por perto e procura se isolar?” “Exceção: Bermanos, que se dizia escritor de sala de jantar” in Obra completa, p. 413), mas apenas uma janela. A porta se abrira para uma janela, pela qual eu iria não só observar, mas ser observado, ser observado ao observar. O olhar interrogativo do início foi paulatinamente se tornando exclamativo, afinal, ninguém me deu a chave, eu a procurei e dela fiz uso.
A janela está aberta. Ao fim e ao cabo, agora já me sinto familiarizado com essa idéia de estar na janela, pois trago da infância a memória das fofoqueiras debruçadas no batente, medindo cada passo dos vizinhos: quando saiu, com que roupa, o que levava nas mãos, se sorria, se ia bravo, com que foi, se levou guarda-chuva, com quem voltou, que horas voltou, se esqueceu o guarda-chuva, como voltou... E não contentes só em observar, comentavam entre si, trocavam informações e impressões, fazendo fama ou destruindo reputações: “você viu Fulano?”, “ficou sabendo de Beltrano?”, “Menina, mas que pouca vergonha a de Sicrana?” Confesso que, quando criança, tinha certa birra (ah, birra, acho que desde criança não usava essa palavra, por certo que fosse “birra” o que eu tinha mesmo) delas, pois minha mãe, invariavelmente, fazia parte da rede de seus ouvintes (preciso preservar a minha mãe nesse espaço, claro, afinal, nós, moleques, não pensávamos duas vezes, não titubeávamos ao ofender uns aos outros pondo “a mãe no meio”, já que fofoca naqueles tempos era crime tipificado entre nós, cuja execução da pena se daria na malhação do Judas no Sábado de Aleluia). Eram as rádios do bairro. Hoje, lembro-me com certa saudade, ainda que eu tenha levado algumas palmadas graças à sua capacidade jornalística.
No fundo, acho que esse exercício de escrever sobre o cotidiano, sobre os fatos da rua, sobre a poesia que se extrai do lado de fora das casas (não, isso não é uma poética, há também certas ruas em nossas mentes, ruas da imaginação, com sua cartografia própria, por certo, com suas vias de acesso às ruas físicas) será uma homenagem às minhas fofoqueiras de antanho (nada mais passado que antanho, talvez alhures). Já tenho a minha janela (aberta, sem vidro, persiana, brise-soleil ou cortina), na qual posso me debruçar – cabe antes deixar claro, não me furto a caminhar pela rua também, como pedestre que sou – para espiar o mundo, como bem recomendou o Chico Alvim.
COM ANSIEDADE
Os dias passam ao lado
o sol passa ao lado
de quem desceu as escadas
Nas varandas tremula
o azul de um céu redondo, distante
Quem tem janelas
que fique a espiar o mundo
Espio e falo por ela.
Escrito por Paulo Ferraz às 14:47:00
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