Uma carta de 2004
Ana, meu bem, antes de tudo: que merda que é tentar escrever algumas palavras pra você (e por falar em merda, ontem ainda eu citava pela milésima vez o Álvaro de Campos: “Merda! Sou lúcido”, sei que não tem nada a ver, mas me lembrei de você brincando com o poema do Mário “te acalma, minha loucura”, poxa, eu queria muito um dia escrever um verso – ia ficar parecendo aquelas bonequinhas russas, ah, você não sabe, mas comecei a estudar russo, língua do cão, não consigo aprender nada, por sinal, o Álvaro de Campos diz que tudo é lúcido como um Gorki, um Dostoiévski, que grande merda! então, um poema tirado de outro tirado de outro – “te acalma, minha lucidez”), tentei outro dia sentado num bar do Flamengo, o Garota do Flamengo, uma espelunca, onde as carnes são preparadas ao lado das mesas e todos os clientes saem com cheiro de picanha na chapa, eu tinha acabado de sair da casa do Armando e da Cristina, você precisava ver como o Carlos está grande, levava comigo a sua nova antologia, fiquei ali tomando algumas canecas de chopp escuro (rien, cette écume?) e lendo seus poemas que o Armando de um jeito tão certeiro selecionou. O Armando é mesmo foda, ele tem um amor muito grande por você, ninguém melhor que ele saberia explicar para a garotada que inestinguível é o que não acaba e que hímen é a parte que veda em parte a vagina virginal, vai, isso já é quase um verso, olha aí, as bonequinhas russas! Acabei que só li e bebi, cheguei a escrever alguma coisa num papel pardo, mas não me lembro onde diabos enfiei essa porcaria, tudo bem que o que escrevi era ruim (não sei ser espontâneo, meu bem, tem que ter talento), mas quem sabe não se salvava uma palavra ou outra. Mas eu me lembro de uma idéia. Já te conto. Ontem, eu mandei uns poemas seus para uma amiga e, a despeito das diferenças entre os meus poemas e os seus, eu insisto sempre em dizer pra todo mundo que teadoro (vou roubar o verbo do Bandeira), que te ler é como roubar o carteiro, só que você sabe que o carteiro será roubado, joga com isso, e nós sabemos que você joga com isso, esperamos cartas falsas, daí você finge ser outra e é você mesma, opa, isso é do caralho, tudo vira um só, meia-bruxa, meia-fera. Ah, por que tudo isso? porque me lembrei do poema que queria escrever e não fui capaz:
da foto
ninguém viu que nesse envelope dizia
FRAGILE
?
envelope de cotton & a obra completa
Então o poema era esse. Quer dizer, no dia eu só pensava nisso, niguém viu a palavra FRAGILLE, e aquilo me doia tanto. Desculpas, acho que não posso mais continuar. Preciso terminar um trabalho que está me atormentando, e já são quase três da madrugada, vou começar meu ritual, pôr pra tocar a Gal cantando o “Três da madrugada” do Torquato, todo dia é dia dele, esse é outro com quem precisava trocar umas idéias. Amanhã, vou acordar cedo e nadar um pouquinho, depois pagar o condomínio e voltar pra casa e estudar. Não vejo a hora das férias. A gente se fala. Beijos P
Escrito por Paulo Ferraz às 21:33:29
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Очи чёрные
Quando eu fazia russo no Largo de São Bento, minha professora Tatiana nos ensinou essa canção folclórica russa, Очи чёрные (otchi tchiornie), que fala da paixão de um jovem por uma moça de olhos escuros, dizia ela que na Rússia as mulheres de olhos escuros tinham algo de especial, diferente, meio ciganas (eh, Capitu!), vindas de outras terras, e por isso mesmo um perigo para os jovens eslavos; o tema é extremamente romântico, é um tal de fugir, um tal de enfrentar a morte, aquelas coisas. A melodia é cigana e a letra foi escrita em 1843 pelo poeta ucraniano Yevgen Grebenka, tanto que haveria uma influência do ucraniano no texto, por exemplo очи (otchi) para olhos, já que em russo o habitual é глаза e час (tchas) para momento, em russo quer dizer apenas horas. Não me lembro da melodia, mas tenho o texto em russo. Segue acompanhado de uma versão que fiz para o português, tentei preseervar o ritmo 4 + 4, as rima aabb, fazendo aqui e ali umas "pequenas" mudanças, mas mantendo a idéia geral.
OLHOS ESCUROS
Olhos escuros, cheios de paixão! Olhos ardentes e belos são! Como eu os amo! Como eu os temo! Certo, eu os vi num tempo extremo!
Oh, não por nada, o profundo escuro! Para minha alma o luto procuro, São duas fogueiras, nas quais me deito Dou-lhes a brasa: meu pobre peito.
Não melancólico, sequer casmurro Como consolo a vocês me empurro: Deus nos deu tudo de bom na vida nos olhos ígneos morrer convida.
Очи чёрные
Очи черные, очи страстные ! Очи жгучие и прекрасные ! Как люблю я вас! Как боюсь я вас ! Знать, увидел вас я в недобрый час !
Ох, недаром вы глубины темней ! Вижу траур в вас по душе моей, Вижу пламя в вас я победное: Сожжено на нем сердце бедное.
Но не грустен я, не печален я, Утешительна мне судьба моя: Все, что лучшего в жизни бог дал нам, В жертву отдал я огневым глазам !
PS: acabo de descobrir que o Nikita Mikhalkov tem um filme chamado "Olhos Negros" (sim, é o mais correto, mas em inglês é Dark Eyes, então...)
Escrito por Paulo Ferraz às 13:25:09
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Nosso amigo Fabio Aristimunho já publicou esse poeta no blog dele (Medianeiro), por isso não vou dizer mais nada sobre Jon Mirande, vou apenas deixar uma versão de um poema seu sobre Pigalle, sim, aquela região de Paris toda alegre e iluminada, onde o Barão Haussmann não pôs a mão (pode ter posto outra coisa, mas isso não sei) para alegria de Toulouse-Lautrec e outros tantos, inclusive nos dias de hoje. Esse poema foi feito de uma versão catalã, não a encontrei em castelhano, mas o original em basco parece dar certa credibilidade à tradução.
PIGALLE
.................Para Raymonde
A noite brilhava, no céu de Pigalle ardiam as estrelas — no ventre das putas canta o precioso vinho negro.
Ninguém na rua senão eu, ainda sóbrio, e a alegre canção do vinho das putas...
...sedento te procurava, Raymonde, de bar em bar.
Raymonde, a mais doce das piranhas, uva madura entre as cepas de Pigalle, verte o teu vinho na minha boca e faz-me ver o céu e as estrelas!
PIGALLE
Zohardi zan, Pigalle-zeruan izarrak phiztu ziran —puten sabelean arno beltza botz-kantuz.
Nihaur kaleetan aitzina, horditu ezina puten arno kantariaz...
...egarri zure bilha, Raymonde, gabats ederra barez bar.
Raymonde, soin humoa, mahats humel! Pigalle-ko mahastietan, arno indazu nire ahorako zazpigarren goian izarrak dakhuszkidan!
(Jon Mirande, 1951)
PIGALLE
................. Per a Raymonde
La nit lluïa, en el cel de Pigalle ardien les estreles —al ventre de les putes canta el joiós vi negre.
Ningú al carrer sinó jo, encara sobri, i l’alegre cançó del vi de les putes...
...assedegat et cercava, Raymonde, de bar en bar.
Raymonde, la més dolça de les meuques, raïm madur entre els ceps de Pigalle, vessa el teu vi en la meua boca i fes-me veure el cel i les estreles!
Traducció d’Eduard J. Verger
Escrito por Paulo Ferraz às 19:35:37
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Manel Garcia Grau
Fico sempre indo do País Basco para a Catalunha e desta para aquele (não fisicamente é claro). O poeta de hoje é Manel Garcia Grau. Lembro-me que logo nos primeiros meses de aulas de catalão cheguei ao poema "VELLA HISTÒRIA A L’HOTEL SOCIETY", fiz uma tradução rápida e cheguei (coisa que nunca faço) a mandar um e-mail para ele, havia encontrado um endereço da sua universidade, escrevi num catalão bem mais ou menos, porém nunca recebi uma resposta, até aí nada de mais. Enquanto escrevia essas primeiras palavras, fiz uma busca pela internet, quando descubro que ele falecera em 05/06/2006, aos 44 anos, depois de um certo tempo doente. Estranho, muito estranho. Postarei aqui seu poema como uma homenagem.
VELHA HISTÓRIA NO HOTEL SOCIETY
...................... Vou sem ter na verdade nem alegria, nem amor, nem luz, .......................................................entre as nuas fatias do mundo. .....................................................................RAY BRADBURY
No hotel Society — rua Velho Mundo, número sessenta e nove — três rameiras se abrigam sob o calor de uma luz vermelha e de uma triste espera: são a puta Dissidência, a puta Revolução e a piranha Opulência. A primeira, jovem e atrativa, quase não tem trabalho: é altiva e esquiva, exigente na escolha de homem ou de mulher e grande conhecedora da arte e da técnica de seu ofício.Um dia a visita o Senhor do Santo Poder, macho arrogante do bairro da Violência, que lhe propôs certos negócios. Ao negar-se a Polícia da Realidade a deteve: passou muitos dias na prisão e recebeu torturas das mãos do Verdugo da Justiçai. A segunda, velha e desleixada, se olha no espelho entre o acabamento de umas paredes rachadas e repintadas. Seus poucos clientes sabem que vem do povo, é pouco educada e a acham meio boba: sempre que pode sai do quarto para andar contemplando as estrelas. A terceira, perua e convencida, é a mais solicitada: bufona e refinada, seus clientes dizem saber que estudou em escolas particulares, viveu muitos anos na Cidade dos Ricos Prodigios e tem aquilo que os homens dizem ter classe, mas o seu feitiço desaparece quando o cliente engomado se apercebe dos potes de maquiagem que usa no rosto, dos peitos de silicone, do lifting e da peruca ruiva, caporenta e suja, que põe toda noite para entrar em cena.
.........................Às vezes as visitam a piranha Esperança e a puta Resistência que lhes contam antigas histórias de quando os homens eram mais máculos, mais atentos e mais interessantes. «Agora, dizem, só querem foder como fazem na televisão e te contam asneiras rotineiras e entediantes, ah, aqueles tempos em que os homens te faziam sentir como uma rainha não voltarão…» Naquele hotel da boca do lixo as três rampeiras recordam velhos tempos e espera, há muitos anos, que alguém as leve para foram daquela cidade envidraçada e hipócrita: sabem que, em algum outro lugar, a puta Utopia e a puta Liberdade lhes falaram de um bordel ...................- rua da Boa Esperança, esquina com a via Ítaca - onde os homens as tratavam tratavam com dignidade e simplicidade sob o calor de uma luz diferente, azul e fulgurante, dirigido pela senhora Poesia e estimado entre as rosas e os fogos de uma vida criativa e profunda
Se algum dia visitarem o Society —recordem-se: trecho da Verdade, cruzamento Existência com Ideal, entre a avenida do Sonho e a travessa da Persistência ainda as encontrarão. E não se esqueçam de tratá-las bem: paguem sempre a conta e deixem que os encham de desejo e de azuis as suas mãos receiosas.
VELLA HISTÒRIA A L’HOTEL SOCIETY
............................ Vaig sense tindre en realitat ni alegria, ni amor, ni llum, ...........................................................entre les nues engrunes del món. ...............................................................>>>>.. RAY BRADBURY
A l’hotel Society —carrer Vell Món, número seixanta-nou— tres bagasses s’arreceren sota l’escalfor d’un llum vermell i d’una trista espera: són la puta Dissidència, la puta Revolució i la meuca Opulència. La primera, jove i atractiva, gairebé no té treball: és altiva i esquiva, exigent en la tria de l’home o de la dona i altament coneixedora de l’art i la tècnica del seu ofici. Un dia la visità el Senyor del Sant Poder, mascle xulo del barri de la Violència, i li proposà certs negocis. Al negar-se la Policia de la Realitat la detingué: passà molts dies a la presó i rebé tortures de mans del Botxí de la Justícia. La segona, vella i desendreçada, es mira a l’espill entre la deixadesa d’unes parets esquerdades i repintades. Els seus pocs clients saben que ve del poble, és poc educada i la creuen mig boja: sempre que pot surt de la cambra per anar-se’n a contemplar les estreles. La tercera, enjoiada i creguda, és la més sol·licitada: bufona i refinada, els clients diuen que saben que fou a un col·legi privat, va viure molts anys a la Ciutat dels Rics Prodigis i té allò que els homes en diuen tindre classe, però el seu embruix desapareix quan el client engominat se n’adona dels pots de maquillatge que porta a la cara, dels pits de silicona, del lifting i de la perruca rossa, casposa i bruta, que es posa cada nit per sortir a escena. ........................... A vegades les visiten la meuca Esperança i la puta Resistència i es conten antigues històries de quan els homes eren més mascles, més atents i més interessants. «Ara —diuen— sols volen follar com ho fan a la televisió i et conten maldecaps rutinaris i avorrits, ah, aquells temps en què els homes et feien sentir com una reina ja no tornaran…» En aquell hotel de mala mort les tres bagasses recorden vells temps i esperen, des de fa molts anys, que algú se les emporte fora d’aquella ciutat emmirallada i hipòcrita: saben que, en algun altre lloc, la puta Utopia i la puta Llibertat els van parlar d’un bordell ............................... —carrer de la Benaurança, xamfrà amb la via d’Ítaca— on els homes les tractaven amb dignitat i senzillesa sota l’escalfor d’una llum diferent, blava i fulgent, regentat per la senyora Poesia i estimat entre les roses i els focs d’una vida creativa i profunda.
Si algun dia visiteu el Society —recordeu: pany de la Veritat, cruïlla Existència amb Ideal, entre l’avinguda del Somni i la travessera de la Persistència encara les trobareu. I no oblideu tractar-les bé: pagueu-les sempre al comptat i deixeu que us omplin de desig i d’atzurs les vostres mans receloses.
Manel GARCIA GRAU, Anatema, Ed. Bromera, Alzira, 2001.
Escrito por Paulo Ferraz às 02:30:00
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