a máquina do mundo se entreabriu
Carlos Drummond me deu a dica: palmilhar vagamente uma estrada de Minas. Foi o que fiz. A Minas Gerais quase mítica do meu pai enfim se tornou real com um convite do meu querido amigo Donizete Galvão, esse Virgílio da Borda da Mata, que me levou pelas cidades em que meus antepassados viveram e meus parentes ainda vivem, como as irmãs de minha avó, que de lá saiu em 1957 com destino ao Mato Grosso, acompanhando meu avô e levando oito filhos (o nono nasceria em meio à mata de um lugar chamado Porto dos Gaúchos). Meu avô e minha avó já se foram, mas visitar suas montanhas foi como reencontrá-los. Cachoeira não é mais a mesma, modernizaram alguns imóveis, como que para trazê-la do passado, se soubessem do engano, do frankstein urbano que criam, por isso o sobrado do meu bisavô não está mais lá, nem sinal do balcão de onde se via a praça da igreja, na qual meu bisavô tocava os sinos e preparava o turíbulo, tendo a minha bisavó feito as hóstias (que enquanto não fossem consagradas eram um petisco para a molecada. Depois pergunto pro meu pai), nem sinal da porta lateral que dava prum salão onde meu avô tocava não os sinos mas um boteco. Mas a igreja está lá, e guiado pelas primas do meu pai, subimos à torre, onde está o carrilhão, formado por uma dúzia de sinos, um doado pelo meu tataravô, que também doara a pia batismal, outro pelo meu bisavô, seus nomes estão lá. Ao descer segurei a corda, tensionei-a levemente, como se fosse tocá-los, mas como explicar pra cidade aquele toque extemporâneo, queria repetir o gesto do meu bisavô que enquanto teve forças o fazia (e olha que ele só faleceu aos 101 anos e seis meses, já em 1975). Deixamos a igreja pra trás e fomos em direção à casa em que meu pai nasceu, uma ou duas quadras pra frente. Ao chegar lá, ouço os sinos, cujos nomes chegaram a mim, perpetuados no bronze e agora na minha memória.
Escrito por Paulo Ferraz às 23:25:32
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