De novo nada


Анна Ахматова

    

Numa de minhas primeiras visitas a São Paulo, no centenário de Mario de Andrade, sim, outubro de 1993, passava pela Paulista e entrei na livraria Belas Artes - sobre a qual hoje, infelizmente podemos dizer, a antiga, a saudosa livraria Belas Artes -, prum garoto que saía do Mato Grosso eram livros demais, eram nomes demais, e claro, dinheiro de menos. Muitos livros me chamaram a atenção, um deles, lembro-me que o segurei, fiz que o ia levar, mas acabei devolvendo-o, era o livro Réquiem, de Anna Akhmátova, não sei dizer se a conhecia ou não, mas seja como for, quis muito levar aquele livro que nunca mais vi, se alguém souber (ou tiver em casa) me avise, pois gostaria muito desse reencontro.

Enquanto isso, vou me contentando com um poema ou outro que me cai nas mãos, como o que tive a displicência de traduzir...Bem, numa sitética biografia, informo que Akhmátova nasceu em Odessa em 1989 numa família de origem tártara. Estudou em Kiev e São Petersburgo, casando-se em 1910 com Nikolái Gumiliov, com quem formou ao lado de Mandelstam, o Acmeísmo, um dos muitos movimentos literários que agitavam a Rússia do começo do séc. XX. Seu primeiro livro "A tarde" é de 1912, quando nasceu também seu filho. Com a Revolução Russa sua vida é profundamente afetada (a sua e de muitos outros, como sabemos), não só literariamente, já que seu marido é fuzilado em 1921 (como vocês verão o poema que segue trata desse acontecimento) e seu filho é exilado na Sibéria por anos, nos quais Akhmátova manteve-se praticamente em silêncio, voltando a publicar somente após a década de 1940. Já seu livro Réquiem foi publicado em 1963, em Munique. Falece em 1966.






Não freqüentas mais a vida,
da neve não sais.
Vinte e oito fuzis de saída,
cinco são fatais.
Pro meu amado, camisa
amarga cosi.
A terra russa precisa
sentir sangue em si.

16 de agosto de 1921




Не бывать тебе в живых,
Со снегу не встать.
Двадцать восемь штыковых,
Огнестрельных пять.
Горькую обновушку
Другу шила я.
Любит, любит кровушку
Русская земля.

16 августа 1921


Escrito por Paulo Ferraz às 23:48:50
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Romênia




Amanhã dois novos países entram para a comunidade européia, a Bulgária e a Romênia, por acaso, há poucos dias reli o poeta romeno Lucian Blaga, por conta de uma dúvida sobre o nosso suposto tesouro da língua, a palavra saudade, pois é, pois é, nossos companheiros de língua latina que ficaram isolados entre os eslavos e magiares têm um palavra com um significado muito semelhante: Dor. Recomendo a leitura desse poeta na página Poesia.net do amigo Carlos Machado, assim nos irmamos ainda mais desse país tão pouco conhecido entre nós, que entre outros deu ao mundo Mihai Eminescu, Tristan Tzara, Eugène Ionesco, Emil Cioran e Paul Celan. Entre estes outros, cito Gellu Naum, nascido em Bucareste em 1915 e falecido em 2001, que por conta de seus estudos em Paris entrou em contato com André Breton e a arte surrealista, tendo na sua volta à Romênia organizado uma "célula" surrealista, mas que foi dissolvida em 1947, quando do início da dominação socialista. Naum traduziu para a sua língua Diderot, Stendhal, Víctor Hugo, Jacques Prévert, René Char, Franz Kafka e Samuel Beckett. Seguem dois poemas seus, como não sei romeno, são de segunda mão (via tradução para o castelhano de Darie Novaceanu):

CROSTA

A cidade tinha somente uma casa
a casa tinha somente um quarto
o quarto tinha somente uma parede
a parede tinha somente um relógio
o relógio tinha somente uma língua

Durante esse tempo os meninos
cresciam e demandavam uma única pergunta
enquanto os adultos incertos e arrogantes
se amiudavam se amiudavam sorrindo.



CRUSTA


Oraşul avea o singură casă
casa avea o singură încăpere
încăperea avea un singur perete
peretele avea un singur ceas
ceasul avea o singură limbă

în tot acest timp copiii
creşteau şi puneau o singură întrebare
pe când adulţii nedumeriţi şi superbi
scădeau scădeau surâzând.

CAPARAZÓN


la ciudad tenía solamente una casa
la casa tenía solamente un cuarto
el cuarto tenía solamente una pared
la pared tenía solamente un reloj
el reloj tenía solamente una aguja

Todo este tiempo los niños
crecían y planteaban una sola pregunta
mientras que los adultos
inciertos y arrogantes
se disminuían sonriendo.


CICLO

Todo outono e toda primavera
o avô atravessava com as ovelhas
o espaço cárpato-balcânico
ida e volta
e as ovelha baliam
expressando deste modo
as mudas leis da migração

Um dia as ovelhas morreram

Em sua vagabundagem solitária
o avô deixou crescer uns longos bigodes
e começou a cuidar de uma manada de pedras

Depois o avô morreu também
os bigodes cesceram cada vez mais longos
as pedras desceram à terra
e começaram a morder seus bigodes.


CICLO

Cada otoño y cada primavera
el abuelo atravesaba con las ovejas
el espacio cárpato-balcánico
ida y vuelta
y las ovejas balaban
expresando de este modo
las mudas leyes de la migración

Un día la ovejas murieron

En su vagabundaje solitario
el abuelo se dejó crecer unos largos bigotes
y empezó a cuidar una manada de piedras

Después el abuelo se murió también
los bigotes crecieron cada vez más largos
las piedras bajaron a la tierra
y empezaron a morder sus bigotes.


Do primeiro poema encontrei o original romeno, daí a opção por "Crosta" próximo de "Crusta" e não "Carapaça", como poderia sugerir "Caparazón"; outra opção foi usar o verbo "amiudar-se", repetindo-o, pois assim está no original. Há porém algo que me intriga, é o uso do termo "limbă", em castelhano está "aguja", numa versão pro inglês está "hand", só que "limba" quer dizer "língua", enfim, deixei língua para manter a possível ambivalência e o estranhamento, mas se quiserem leiam "ponteiro" que no fundo no fundo é uma língua, até por que o Houaiss diz: "qualquer coisa que tenha o aspecto de língua (uma labareda, p.ex.)"




Escrito por Paulo Ferraz às 12:17:24
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