De novo nada


EICH




Há muito tempo comprei um livro: Oito séculos de Poesia Alemã, uma edição da Calouste Gulbenkian, que li com muito interesse, a despeito de todos os poemas estarem em alemão, sem traduções para o português infelizmente (lembro-me de um outro, da Ediouro, uma edição de bolso, que trazia traduções, muitas que iam desde Gonçalves Dias aos modernistas), mas que trazia alguns estudos dos períodos e sobre seus principais representantes (a Ana Rüsche deve se lembrar desse livro, pois eu emprestei para ela, no distante ano de 1998, quando ela ainda estava no Porto Seguro). Claro que Goethe (tentei traduzir o "Mailied": Wie herrlich leuchtet/ Mir die Natur! Wie glänzt die Sonne! Wie lacht die Flur! Como magnificamente/ a Natureza me ilumina! Como resplandece o sol! Como gargalha a campina!... sem sucesso...), Schiller, Novalis, Heine, Hölderlin, Stefan George, Rilke, Trakl, Benn, Brecht e Celan já eram meus conhecidos (não tão próximos, diga-se), outros eu acabara de conhecer como Hugo von Hofmannsthal, Christian Morgenstern, Ingerborg Bachmann, Hans Magnus Enzensberger e Günter Eich. Infelizmente, nunca mais estudei uma linha de alemão, continuo apenas com as frases de primeiro ano, aquelas: "eu me chamo fulano", "eu moro na cidade tal", "tenho tantos anos". Todavia, lendo certa vez A verdade da poesia do Michel Hamburger, voltei os olhos novamente para Eich e a poesia do Pós-Guerra, no qual ele citava o conhecidíssimo poema "Inventário", santa ignorância a minha, Batmann, conhecidíssimo? então voltei ao meu velho livro Oito séculos... e lá estava ele, o "Inventur", do qual arrisquei fazer uma tradução, que ficou perdida no meu computador, mas resgatada agora (havia feito outra, chama-se "Zwei" "Dois", do qual perdi o original, fiz então uma paráfrase, irei publicá-la depois). Segue o conhecidíssimo poema (preciso dizer que correções serão mais que aceitas?)



Inventário


Esta é minha boina,
este é meu casaco,
aqui o meu lenço,
na bolsa de linho.

Lata de conservas:
meu prato e meu copo,
sobre a tampa está
meu nome gravado.

Gravado com este
precioso prego
a salvo comigo
de olhos invejosos.

Num saco de pão
estão um par de meias
e outras coisas, que
sem a ninguém trair,

serve de almofada
à minha cabeça.
O papel no chão
entre mim e a Terra.

A mina de grafite
é a que mais amo
de dia me escreve os versos
pensados na noite.

Este é meu diário,
esta é minha barraca,
esta é minha toalha,
esta é minha linha.



Inventur (1945)

Dies ist meine Mütze,
Dies ist mein Mantel,
Hier mein Rasierzeug
Im Beutel aus Leinen.

Konservenbüchse:
Mein Teller, mein Becher,
Ich hab in das Weißblech,
Den Namen geritzt.

Geritzt hier mit diesem
Kostbaren Nagel,
Den vor begehrlichen
Augen ich berge.

Im Brotbeutel sind
Ein Paar wollene Socken
Und einiges, was ich
Niemand verrate.

So dient es als Kissen
Nachts meinem Kopf.
Die Pappe hier liegt
Zwischen mir und der Erde.

Die Bleistiftmine
Lieb ich am meisten:
Tags schreibt sie mir Verse,
Die nachts ich erdacht.

Dies ist mein Notizbuch,
Dies ist meine Zeltbahn,
Dies ist mein Handtuch,
Dies ist mein Zwirn.



Günther Eich (1907 - 1972), nasceu no leste da Alemanhã, em Lebus. Estudou Direito e Sinologia em Leipzig, Berlin e Paris. Foi soldado na Segunda Guerra, tendo sido feito prisioneiro dos americanos, sendo libertado em 1946.


Escrito por Paulo Ferraz às 21:37:45
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Gonzalo Rojas, eu e as mulheres ocas/vazias



Em poesia é mais que comum dois poetas caminharem por vias muito parecidas sem que um conheça o outro, sem que vivam, inclusive, no mesmo país ou tempo, talvez porque não haja nada de novo a se dizer (o como dizer, sim, há muitas formas de não se repetir a repetição), sem poder, portanto, falar-se em influenciado por, inspirado em, ou mesmo plagiado de. Seriam muitos os casos, mas gostaria de citar um caso particular, desculpem-me a falta de discrição, fazer autopropaganda não é bem o meu estilo, e querer colar-se à obra de outro então é de uma petulância que não cabe. Ainda assim quero registrar a coincidência entre um poema meu e outro do chileno Gonzalo Rojas (nascido em 1917), ele um dos maiores poetas chilenos ao lado de Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Gabriela Mistral e Nicanor Parra. O meu chama-se "Devotas da mulher de Lot" e foi escrito, salvo engano, no final de 1999 ou começo de 2000, o do Rojas chama-se "Las mujeres vacías" e foi publicado pela primeira vez em 1948, em seu livro de estréia, La miseria del hombre, depois republicado em Contra la muerte, de 1964, com o título de "Adivinanza", já reduzido à primeira estrofe, e novamente como "Las mujeres vacías" em seu livro Oscuro de 1977. De algum modo, talvez eu, talvez ele, talvez ambos, tenhamos partido de uma mesma imagem, a cunhada pelo Eliot (agora eu fui longe demais): "Nós somos os homens ocos/ Os homens empalhados/ Uns nos outros amparados/ O elmo cheio de nada. Ai de nós!" Oh, minha cabeça vazia, deixei de registrar essa informação nos primeiros rascunhos, agora já era, leiam os poemas e tirem suas próprias conclusões.

Devotas da mulher de Lot


(Paulo Ferraz, in Evidências Pedestres, a sair)

Nelas tudo é falso -
se mesmo a pretensa
sensualidade é pos-
tiça, o que dizer das
camadas de pó-de-a-
rroz barato sobre a
palidez da cara,
do descolorido
químico e dos óleos
de suas cabeleiras,
da mescla de cheiros
recendidos ou dos
dois trapos que imitam
roupas sobre os corpos? -
engenhosamente
falso, pois, capazes
de criar carapaças
na pele, esticar o
pescoço, só querem
ludibriar o enxofre
que está ao pé da porta,
fugindo do circo
como fossem justas,
e não dar pousada ao
passante sem teto
que lhes pede o quarto.

(Pena que não foram
tiradas quando eram
formadas apenas
da tenra matéria
de que todos fomos
moldados. Agora
são ocas - por isso
se maquiam em excesso,
tanto que, despidas
de tudo, de cara
limpa, não são vistas -
e nunca sabemos
o que trazem dentro.)

Se a hora é de matinas
ou vésperas, pouco,
muito pouco importa
para essas romeiras
de salto alto e meia-
sola remendada
que, talvez por medo ou
saudade da casa
perdida, repetem,
banhadas em suor, o
destino da mãe e
padroeira que está no
meio da rua parada.




As mulheres vazias
(Gonzalo Rojas, in La miseria del hombre, 1948, tradução minha)

Passam o dia pintando outro corpo
sobre seu corpo, suam
pintura com partículas de sangue
misturadas à sua beleza.
Menos que meretrizes, mais que vacas,
merecem um estábulo
onde haja cem corridas de mulheres
de quatro patas, com os úberes soltos.
Estas foram as belas de outros dias,
as que enganaram e mentiram
com suas covas tapadas pela imundice
da inocência a preço de ouro.
Abortaram na carne e no espírito,
pela urina e vômito,
pela boca, umbigo e orelhas.
Escapava-lhes tudo, menos algo.
Menos esse vazio que era tudo:
o ócio delicado,
o sorriso mordido pelo vício
a cratera do perfume de suas pernas.
De um milheiro de donzelas quietas,
há quinhentas vazias
que vivem pela honra das emprenhadas
pelo homem ou o sol do sacrifício.
A mulher deve estar cheia de coisas
como a mesma terra,
pelo trabalho ou o amor, guardando
as paixões dos homens.
Mas o mundo está cheio de mulheres vazias,
depois e antes do parto,
e a morte é também uma mulher vazia.
Cuspamos seu rosto e sua lembrança.




Las mujeres vacías


Pasan el día pintando otro cuerpo
sobre su cuerpo, sudan
pintura con partículas de sangre
mezclada a su belleza.
Menos que meretrices, más que vacas,
merecen un establo
donde haya cien corridas de mujeres
en cuatro patas, con las ubres sueltas.
Estas fueron las bellas de otros días,
las que engañaron y mintieron
con sus hoyos tapados por la mugre
de la inocencia a precio de oro.
Abortaron en carne y en espíritu,
por la orina y el vómito,
por la boca, el ombligo, las orejas.
Se les salía todo, menos algo.
Menos ese vacío que era todo:
el ocio delicado,
la sonrisa mordida por el vicio,
el cráter del perfume de sus piernas.
De un millar de doncellas acostadas,
hay quinientas vacías
que viven el honor de las preñadas
por el hombre o el sol del sacrificio.
La mujer ha de estar llena de cosas
como la misma tierra,
por el trabajo o el amor, guardando
las pasiones del hombre.
Pero el mundo está lleno de mujeres vacías,
después y antes del parto,
y la muerte es también una mujer vacía.
Escupamos su rostro y su recuerdo.



Escrito por Paulo Ferraz às 22:01:00
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