Sobre esse quiprocó entre mim e mim mesmo na noite passada, houve um detalhe que omiti: como não costumo ser insone, em certo momento comecei a refeltir sobre a situação de querer dormir e não conseguir, pois é, esta parece ser uma característica minha, eu raramente desligo a chavinha da razão, então logo eu estava analisando a mim mesmo e a falta de sono, aquilo foi ficando estranho, pois de algum modo eu queria me desdobrar, queria naturalmente me envolver com a procura pelo sono, mas um "outro" eu ficava me analisando, isso, era como se aquela pessoa que fica atrás de nós no divã estivesse no meu quarto, mas os dois eram eu. Ah, « je est un autre », como dizia o Rimbaud, deve ser, deve ser, talvez seja essa razão de haver poetas! (um dia eu conto, quando com uns oito anos, na zona rural de Mato Grosso olhei ao redor de mim, vi o campo, fiquei sentindo o vento, ao lado de um grupo de moradores da região que não davam a mínima para o que viam, e então por um instante eu me vi separado deles... olha, já contei!). Enfim, saí da cama, e uma das razões foi que eu precisava pôr no papel algumas das minhas "interpretações" daquela situação. Isso virou um poema, acho que é o primeiro poema meu que posto aqui direto, sem mediação, mas como está no contexto, acho que vem bem a calhar. Só estou na dúvida quanto ao título, usei ALBA, como disse no post anterior, mas na verdade acho que deveria se chamar "in albis", ok, ok, esse latim jurídico é uma porcaria, mas ainda assim, acho que tem a ver. Digam:
Alba
Não a resistência do vento, mas sim a densidade da água que envolve, que agarra o corpo, inoculando o veneno da espera a-
té transformar pele em pensamento, menos, em vozes ouvidas, outras jamais ditas; o que se vê tem do sonho quase nada, a-
penas o desejo de tê-la outra vez à distância dos dedos, ela estaria próxi- ma, não fosse a grita do mundo e do corpo,
não fosse esse oriente, não fosse essa músi- ca que vem das árvo- res, não fosse ouvir do colchão, do lençol e do travesseiro: volta ao
real, ao invés do leito te reclama a lida.
Escrito por Paulo Ferraz às 22:59:28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
João Gilberto, Nicanor Parra, eu e você, na madrugada
Raramente tenho insônia. Algumas vezes simplesmente demoro um pouco mais para dormir, isso porque fico entretido com alguns pensamentos, fico desatando alguns nós feitos ao longo do dia, como um copydesk revejo, reedito e, quando satisfeito, caio no sono. Hoje, sei lá qual motivo (uma rápida saída para beber água), acordei no meio da madrugada, e nada de dormir (que inveja da Chuchu e da Mimo que dormiam, por sinal, elas só dormem), nada, ficava lá na cama rolando de um lado pra outro, me agarrando em algum fragmento de conversas, revivendo algumas cenas que me fazem bem, mas nada me serviu de lullaby, de berceuse, de acalanto. Bem, se não podemos vencer a insônia, façamos dessas poucas horas úteis (de repente me lembrei dos trovadores e suas "albas", "oh, a cotovia já cantou", risos). O dia já está quase nascendo, "Eu, você, nós dois já temos um passado meu amor/ Um violão guardado, aquela flor e outras mumunhas mais/ Eu, você, João, girando na vitrola sem parar/ E o mundo dissonante que nós dois/ Tentamos inventar Tentamos inventar Tentamos inventar/ Tentamos...", é, gente, isso é que é canção de ninar marmanjo, a voz e o violão do João. E que o Morfeu se ferre, ele que vá embalar quem precise dele! E na tentativa de manter a consciência, segue um poema do Nicanor Parra que acabei de encontrar (na verdade queria outro, li há poucos dias, mas não o encontro e não estou com o melhor humor do mundo para vasculhar sites), e que me fez lembrar um velho poema modernista que todos conhecemos. Bom dia para todos, olha o sol ali nascendo atrás da Monte Alegre:
EPITÁFIO
Eu sou Lucila Alcayaga aliás Gabriela Mistral primeiro ganhei o Nobel e depois o Nacional
apesar de que estou morta continuo me sentindo mal porque não me deram nunca o Prêmio Municipal.
EPITAFIO
Yo soy Lucila Alcayaga alias Gabriela Mistral primero me gané el Nobel y después el Nacional
a pesar de que estoy muerta me sigo sintiendo mal porque no me dieron nunca el Premio Municipal
Ah, encontrei o poema, segue mais uma tradução quente como pão de padaria!
É ESQUECIMENTO
Juro que não me recordo nem de seu nome, Mas morrerei chamando-a de Maria, Não por simples capricho de poeta: Por seu aspecto de praça de província. Tempos aqueles! eu um espantapássaros, Ela uma jovem pálida e sombria. Ao voltar uma tarde do Liceu Soube da sua morte imerecida, Novidade que me causou tal desengano Que derramei uma lágrima ao ouvi-la. Uma lágrima, sim, quem acreditaria! E olha que sou uma pessoa de energia. Se hei de conceder crédito ao dito Pelas pessoas que me trouxeram a notícia Devo crer, sem vacilar um ponto, Que morreu com meu nome nas pupilas, Feito que me surpreende, porque nunca Foi para mim outra coisa que uma amiga. Nunca tive com ela mais que simples Relações de estrita cortesia, Nada mais que palavras e palavras e uma ou outra menção de andorinhas. Eu a conheci em minha vila (de minha vila Só resta um punhado de cinzas), Mas jamais vi nela outro destino Que o de uma jovem triste e pensativa. Tanto foi assim que até cheguei a tratá-la Com o celeste nome de Maria, Circunstância que prova claramente A exatidão central de minha doutrina. Pode ser que uma vez a tenha beijado, Quem é que não beija suas amigas! Mas tenha claro que o fiz Sem me dar conta do que fazia. Não negarei, isso sim, que me agradava Sua imaterial e vaga companhia Que era como o espírito sereno que às flores domésticas anima. Não posso ocultar de modo algum A importância que teve seu sorriso Nem desvirtuar o favorável influxo que até nas mesmas pedras exercia. Juntemos, ainda, que da noite Foram seus olhos fonte fidedígna. Mas, apesar de tudo, é necessário Que compreendam que eu não a queria Senão com esse vago sentimento Com que a um parente enfermo se designa. Sem dúvida acontece, sem dúvida O que esta data ainda me maravilha, Esse inaudito e singular exemplo de morrer com meu nome nas pupilas, Ela, múltipla rosa imaculada, Ela que era uma lâmpada legítima. Tem razão, muita razão, a gente que segue se queixando noite e dia De que o mundo traidor em que vivemos Vale menos que roda furada: Muito mais nobre é uma tumba, Vale mais uma folha mofada, Nada é verdade, aqui nada permanece, Nem a cor do cristal com que se olha. Hoje é um dia azul de primavera, Creio que morrerei de poesia, Dessa famosa jovem melancólica Não recordo nem o nome que tinha. Só sei que passou por este mundo Como uma pomba fugitiva: Eu a esqueci sem querer, lentamente, Como a todas as coisas da vida.
ES OLVIDO
Juro que no recuerdo ni su nombre, Mas moriré llamándola María, No por simple capricho de poeta: Por su aspecto de plaza de provincia. ¡Tiempos aquellos!, yo un espantapájaros, Ella una joven pálida y sombría. Al volver una tarde del Liceo Supe de la su muerte inmerecida, Nueva que me causó tal desengaño Que derramé una lágrima al oírla. Una lágrima, sí, ¡quién lo creyera! Y eso que soy persona de energía. Si he de conceder crédito a lo dicho Por la gente que trajo la noticia Debo creer, sin vacilar un punto, Que murió con mi nombre en las pupilas, Hecho que me sorprende, porque nunca Fue para mí otra cosa que una amiga. Nunca tuve con ella más que simples Relaciones de estricta cortesía, Nada más que palabras y palabras Y una que otra mención de golondrinas. La conocí en mi pueblo (de mi pueblo Sólo queda un puñado de cenizas), Pero jamás vi en ella otro destino Que el de una joven triste y pensativa. Tanto fue así que hasta llegué a tratarla Con el celeste nombre de María, Circunstancia que prueba claramente La exactitud central de mi doctrina. Puede ser que una vez la haya besado, ¡Quién es el que no besa a sus amigas! Pero tened presente que lo hice Sin darme cuenta bien de lo que hacía. No negaré, eso sí, que me gustaba Su inmaterial y vaga compañía Que era como el espíritu sereno Que a las flores domésticas anima. Yo no puedo ocultar de ningún modo La importancia que tuvo su sonrisa Ni desvirtuar el favorable influjo Que hasta en las mismas piedras ejercía. Agreguemos, aun, que de la noche Fueron sus ojos fuente fidedigna. Mas, a pesar de todo, es necesario Que comprendan que yo no la quería Sino con ese vago sentimiento Con que a un pariente enfermo se designa. Sin embargo sucede, sin embargo, Lo que a esta fecha aún me maravilla, Ese inaudito y singular ejemplo De morir con mi nombre en las pupilas, Ella, múltiple rosa inmaculada, Ella que era una lámpara legítima. Tiene razón, mucha razón, la gente Que se pasa quejando noche y día De que el mundo traidor en que vivimos Vale menos que rueda detenida: Mucho más honorable es una tumba, Vale más una hoja enmohecida, Nada es verdad, aquí nada perdura, Ni el color del cristal con que se mira. Hoy es un día azul de primavera, Creo que moriré de poesía, De esa famosa joven melancólica No recuerdo ni el nombre que tenía. Sólo sé que pasó por este mundo Como una paloma fugitiva: La olvidé sin quererlo, lentamente, Como todas las cosas de la vida.
De Poemas y antipoemas (Santiago, Nascimento,1954)
Escrito por Paulo Ferraz às 04:57:28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
|

|
|

|