De novo nada


Nunca escrevi diários, mas é como se os escrevesse



Nunca soube ao certo qual porção de individualidade deve o poeta pôr de si naquilo que escreve, quando o poema vira um diário ou quando o diário vira poesia? É certo que há depoimentos, cartas, conversas que são tão profundas, tão verdadeiras que nos arrebata, mas possivelmente nos arrebata porque é real, e há momentos em que o real, cru, sem mediações, nos leva prum poço escuro, nos arrasta por umas zonas abissais de nós mesmos que sempre evitamos. Nunca escrevi diários, mas é como se os escrevesse. No início, era mais claro que meus textos eram resultado de algumas angústias emocionais, coisa de quem começa a escapar da placenta da infância, pouco a pouco as angústias foram aumentando, em vez de diminuirem, deixaram de ser meramente emocionais e ganharam outros espaços da mente, estéticas, sociais, históricas e aí a minha poesia foi paulatinamente ganhando o lado de fora, mas um lado de fora que é sempre observado, filtrado, pensado pelo lado de dentro, a ponto de um e outro entrarem num mutualismo, criarem uma interdependência.

Nesse registro do "diário", gostaria de expor um poema que jamais foi visto por ninguém, permaneceu arquivado em meu computador por longos quatro anos e meio. Trata-se de um poema dedicado a minha avô, Dona Geny, que falecera naquele dia. Sensação estranha, pena que não me lembre dos meus sonhos, pois quando meu pai me ligou numa manhã de sábado ou domingo (escrevendo isso, me lembro de meu pai me acordar no dia do meu aniversário de sete anos dizendo: acorda, pois você verá seu avô hoje pela última vez), quando eu já estava acordado, quando por algum motivo eu já sabia da notícia, como se ela antes já houvesse me avisado. Enfim, qual o limite? até quando devemos nos amarrar nos mastros? ouvir as sereias assim é uma forma de manter-se firme, mas a verdadeira experiência não é nadar atrás delas?


VELA
"and therefore I forbid my tears" (Hamlet, Shakespeare)
para Genny Prado Ferraz (1918-2002)


Olhe-a:
está em chamas

você a vê se desmanchar?
sim, mas é a via do calor


(calor = vida)


Olhe-a:
consumiu-se

nem parafina, nem cinza, nem chama
ela se foi


Para isso queimou (viveu)?
não, para a luz

— se não a vemos mais —

que continua
viva




PS: acabei de encontrar um e-mail escrito à época do falecimento, está na mesma linha deste texto, enfim, como estamos falando de diários, vou deixá-lo público:

"minha vó morreu nessa madrugada, hoje sei lá porque acordei às seis da manhã e assim que levantei meu pai me ligou dando a péssima notíca. Estou muito triste, muito pela morte, e muito por não poder ir ao funeral, pois não tenho dinheiro para isso. Desculpe-me o tom.
Abraços desse teu amigo que te quer bem,

paulo
(esse é um dos preços da distância, viver como um exilado em sua própria terra, agora, 14:50, minha vó deve estar sendo enterrada e não posso estar com meu pai, talvez por isso eu tenha sonhado com ela nessa noite, não me lembro como ou o quê, apenas sei que nessa madrugada acordei com ela na cabeça. Mais uma vez meu pai me impressionou, a primeira vez foi na morte de meu avô, no meu aniversário de 7 anos, ele não derramou uma lágrima, e agora ele me liga, com uma segurança que eu seria incapaz de ter, não sei como ele pode, como ser tão forte? eu ñ posso, eu não sou forte, tanto que agora estou péssimo, e hoje de manhã eu lia o Hamlet, e quando Laertes sabe da morte de Ofélia e diz "Too much of water hast thou, poour Ophelia, and therefore I forbid my tears. But yet it is our trick; nature her custom holds, let shame say what it will", chorei, por Ophelia, por Laertes, por minha avó, por meu pai, por mim.)





Escrito por Paulo Ferraz às 01:22:43
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