Estive pensando outro dia quando começou a minha inquietação que quase nada de novo há para ser feito em poesia, se é que algum dia teve, que na verdade glosamos os mesmos temas ao longo da história, variando a forma, o foco, o corte, olhando ora de telecópio ora de microscópio, dissecando ou implantando. Cheguei a uma espécie de resposta. Em algum momento de 1999 eu lia uma tradução do John Donne feita pelo Augusto de Campos e outra feita (creio) pelo Paulo Vizioli. Pensava comigo: é o mesmo poema, ambos estão trabalhando com a mesma língua, mas chegam a resultados distintos. Pensei, se é possível de uma língua para outra, seria então possível uma "tradução" do português para o português? qual o limite? até onde um poema permite permutas sem perder o que lhe faz realmente ser poesia (ora, quem faz poesia sabe muito bem que há uma hora que devemos dizer chega, pois se não sempre iremos modificá-lo)? Fiz dois exercício, mais um que ficou pela metade e algumas tentativas descatadas já de início. Deixo o primeiro deles, uma "tradução" que fiz do Nelson Ascher, e como toda tradução respeita alguns elementos poéticos, mas "fere" outros. Seguem:
MAIS UMA ABORDAGEM CRÍTICA
É público e notório que a mosca não se presta a nenhum papel - a priori o
símbolo exato do asco, com mérito e louvor, cabe a barata; fiasco
semântico, não evoca funções precisas como o fazem a aranha, a broca;
fruto inútil dos sete dias do labor de deus - pois lixo de toalete
com dotes de ave - até (vê- se que ao acaso) que existe, se bem que a um prazo breve;
no ar sua rota é um sofisma vazio que nada inspira com o qual insiste e cisma - a
seu estilo perfunctório - castrando a lira, já que repete o repertório.
UMA ABORDAGEM CRÍTICA
Como se sabe, a mosca não se presta a nenhuma figura, mesmo tosca,
nem secreta do bojo, como barata, a estrita metáfora do nojo,
também não mostra manhas de texto num exemplo preciso: traça, aranha;
fragmento de delito divino (inócuo, pois minúsculo), detrito
com asas por acaso, quase inexiste e, ao que parece, a curto prazo;
mesmo seu vôo, por muito retórico, tampouco serve a qualquer intuito
lirista e, se se enrosca na lira, ainda assim persiste em ser de mosca.
Escrito por Paulo Ferraz às 09:09:49
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