Rosa, gatos e citações
Hoje vou citar, sim, citar, afinal acredito que citação é mais que demonstração de conhecimento, erudição; é identificação, é querer ter escrito algo, é fazer suas as palavras alheias (ah, claro, eu respeito o texto citado, mas não de modo reverencial, não, creio que é possível profaná-lo também, descolá-lo no tempo/espaço, fazer dele outro texto, mas deixemos isso para o Walter Benjamin explicar). Bom, vamos ao caso. Ganhei o "Caderno de Literatura Brasileira" com o Guimarães Rosa, nem entre no mérito da publicação, Guimarães não precisa de mim, no caso, eu é que preciso dele, a prova é essa passagem do seu diário. Roubo para a Chuchu e para a Mimo, e deixo a prova do crime para aqueles que quiserem roubar o texto para os seus gatos:
9.V.950, Levantei, sem despertador, só com a cortina aberta e o chamado de Ângela, às 8hs. 30'. O tempo que fiquei na cama, foi quase que voluntariamente. Me alegra que esteja mais quente, um pouco, hoje. Xizinha náo tinha querido comer. Fico bem um quarto de hora com ela no braço. Ronrona, ronrona. Ângela diz que ela teve saudades de mim, durante a noite. Levo-a à janela que dá para a rua: seu "cineminha". Leve, quentinha, cheirosa, é como um meu coração externo, contra meu peito. Sua curosidade infantil, para com os automáveis. Amorzinho. Felpudo. Sempre me interessa.
Escrito por Paulo Ferraz às 20:45:27
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Notas sobre a sombra
Um poema novo.Sobre a sombra. Acho que é isso, ainda estou pensando. Feito numa manhã de terça feira, ao observar o movimento dela, que nos permite conhecer os volumes, a profundidade, a distância. Enfim, uma tentativa de retirar a sombra que paira sobre a sombra, rs.
É como digo, das coisas a sombra guarda bem mais que a memória, pois, cria da reali- dade, traz os genes que lhe dão a forma da matriz (ao pai não puxou quase nada, de fato, ele lhe confere o talhe, interferindo sempre no seu desenvolvimento), dizem que é prima distante da água, embora de cores distintas, isso porque ambas se ajustam às superfícies, correm líquidas por outros corpos, todavia, enquanto a branca opta quedar-se em planos ou lançar-se em quedas, a negra tem o orgulho de ficar de pé (antes que o poema termine, peço que deite teus olhos sobre a minha sombra que te cobre e te envolve, tatuagem móvel que gravo em ti, anteci- pando o tato, o toque -- nunca desligue teu abajur).
Escrito por Paulo Ferraz às 14:45:01
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