De novo nada


NO CAFÉ PITTORESQUE





NO CAFÉ PITTORESQUE

Funciona mais ou menos assim: Você. Você entra em cena, chega, escolhe uma mesa. Senta-se. Olha ao redor de si. Deixa um livro de poesia sobre a mesa. Abre. Os pés de um garçom em sua direção. Logo nos primeiros versos te interrompem. Boa noite. Boa noite, uma caneca de chope. O que você estava lendo mesmo? Você precisa de outra distração, poesia não serve. Lá está a caneca. Tente se concentrar nesta espuma, no mundo filtrado pelo vidro dourado úmido. Você até sente os primeiros goles, passa a língua sobre o lábio superior (o movimento é rápido, ninguém veria, mesmo que visse, não poria reparos), sim, o calor está insuportável, por isso essa mesa ao ar livre -- esqueci-me de dizer, que a mesa foi escolhida ao ar livre, você respondeu ao boa noite, mas na verdade é fim de tarde --, mas pensar no clima não é suficiente para te fazer esquecer que já era tempo de ela haver chegado. Começa então o ritual de olhar o vazio da entrada. (...................................... ) O vazio, o vazio, o vazio que se repete. Funciona mais ou menos assim, você olha como se quisesse materializá-la, já viu isso em filmes, por isso, mesmo inconscientemente, crê que sua vontade pode controlar a natureza, seus elementos e suas leis fazendo-a aparecer sob o batente. Assim você segue, não há um período regular, mas mal retira os olhos e os volta em seguida, no fundo você queria ter uma espécie de surpresa, que seus olhares se cruzassem ao acaso (como se cada um andasse em rota de colisão por ruas repletas de gente indiferente), que seu olhar interceptasse o sorrido dela logo no seu nascimento, capturando o primeiro movimento muscular, ali sob o batente, ficando maior a cada passo. Você queria que isso ocorresse agora, nesse instante. Tira os olhos. Outro chope e outros muitos olhares para o vão, o livro desapareceu. Agora um para o relógio, sim, o relógio pode se transformar numa ampulheta, contando o tempo ao avesso até o último grão quando então ela, não, não, ela não chegou, ou o telefone, olhe firme para ele, olhos nos olhos, tudo não passa de uma questão de autoridade, ele serve a você, então diga pausado (mas com firmeza): parla! Garçom, outro chope. Funciona mais ou menos assim, você relaxa, acende um cigarro, dá um trago profundo e expira, na verdade um suspiro, a fumaça e os pensamentos que se dissipam no ar. Então ela está sob o batente. Sorrindo, o primeiro movimento muscular, ficando maior. Funciona mais ou menos assim.


Escrito por Paulo Ferraz às 18:52:41
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